terça-feira, 24 de março de 2009

Um dia a gente descobre

 Por Sarah Menezes

Quando pequena era comum ouvir como eu era simpática, falante e extrovertida. Há quem apostasse que eu teria uma carreira brilhante na política devido a minha desenvoltura e ao meu grande círculo de amizade.
Na infância não é comum refletir sobre o futuro, ainda mais sobre o futuro profissional, afinal, temos coisas mais interessantes para fazer e, pensar no que ser quando crescer pode esperar. Mas esse tipo de questionamento é sempre feito pelos adultos, e quando isso acontecia, a primeira resposta que me vinha era dentista.
Queria seguir essa carreira para poder cuidar daqueles dentes maltratados dos meus avós, pois eles necessitavam e não tinham dinheiro para este “luxo”. No decorrer da minha vida escolar desisti de ser dentista, não tinha a menor delicadeza e paciência para cuidar dentes, mexer com sangue, sentir mau hálito e etc. Definitivamente isso não era para mim.
Pensei em inúmeras outras carreiras como as de bióloga ou biomédica, pois sempre me sobressaí nessa área. Pensei também em história ou filosofia, amava ler e saber detalhes de pensamentos e histórias que constituíram e constituem a minha vida até hoje. Mas nenhuma dessas pretenções vingaram, no final descobri que a minha vocação, o sentido da minha vida profissional sempre fora outro.
Decidi ser jornalista!
Percebia que só seria completa se pudesse passar o resto da vida conhecendo pessoas e histórias, podendo mostrar para o mundo inteiro as minhas vivências, as minhas histórias e, consequentemente, a vida de outras pessoas.
Escolhi o jornalismo para fazer a minha parte por um mundo melhor, denunciando, mostrando a verdade, fazendo do meu habitat um lugar mais justo e ideal para se viver. Tenho certeza que cada pessoa que escolher essa linda profissão é para poder colaborar com o bem estar da humanidade e deixar sua marca na história.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Príncipe

Por Maria Gabriela Brito
 Crédito Imagem: ImageBank-Bruno Muff

Ela nunca foi o tipo de garota que se apaixonava fácil. Aliás, nunca tinha se apaixonado até conhecer Denis. E o filha da mãe nem era bonito como os caras que ela costumava pegar. Viram-se um dia num boteco e Denis a xavecou até cansar. Ela acabou cedendo pela insistência.
Depois do primeiro beijo conversaram durante o resto da noite. Ela não acreditava, ele era perfeito pra ela. Sempre foi o tipo de garota que julgava as outras que beijavam um e no outro dia não sabiam falar de outra coisa. Até tinha algumas amigas assim. Mas depois de Denis, ela entendeu. Aquilo era diferente de tudo que ela já havia experimentado.
Trocaram telefones e ela mal conseguiu dormir pensando nele, lembrando de seu toque e seu beijo. No outro dia não descolou do celular. Ela não sabia o que estava acontecendo, o cara tinha mesmo mexido com a cabeça dela. “Gente, o que eu to fazendo?” pensou inconformada. Decidiu deixar o celular de lado e ir fazer alguma coisa produtiva.
Na academia não conseguiu se concentrar, aquilo estava estranho. Ela
tinha certeza que o cara tinha lançado magia negra nela. Voltou para casa tentando pensar na paisagem, no tempo, no cabelo que precisava cortar. Nada. Nada fazia ela esquecer. Chegou e correu para o celular: 13 chamadas não atendidas – todas dele.
Ela praticamente surtou. Não sabia o que fazer, se ligasse pra ele, será que podia parecer desesperada? Mas e daí? Ela estava mesmo desesperada! Enquanto uma nuvem de dúvidas pairavam sua cabeça, o celular tocou. Era ele. Ela respirou fundo e atendeu tentando parecer normal.
“Oi?”
“Bela? Tudo bom? É o Denis, tentei te ligar algumas vezes e você não atendeu”.
Conversaram um pouco e marcaram de se ver no outro dia. Bela tinha certeza que não ia conseguir dormir de ansiedade para revê-lo. Mas pelo menos agora ela tinha uma pista, aparentemente ele também queria ela. Finalmente depois de toda a espera, os dois se encontraram em um restaurante italiano, tomaram um pouco de vinho e conversaram até sobrarem apenas os garçons no lugar.
Bela olhava fixamente para ele, e tinha certeza de que aquele seria o homem de sua vida, seu marido e pai de seus filhos. Em apenas três dias ele fez com ela o que nenhum outro homem jamais havia feito. E olha que tentaram. A meiguice dela era cativante, além do mais era um mulherão. Devia ser objeto de estudo e motivo de inspiração para outras mulheres.
Mas algo em Denis mexeu com ela. Indecifrável. O sorriso? Era bacaninha, mas ela já havia conhecido melhores. O olhar? A fala? “Acho que era pra ser”, pensou. Saíram do restaurante e acabaram em um motel, onde os dois tiveram a melhor noite de suas vidas. No dia seguinte, Bela esperou pela ligação de Denis o dia todo. Nada. Nem no outro dia e nem no dia depois do outro dia. Ligou uma vez e sua chamada foi rejeitada, depois disso, ela decidiu não ligar mais, não ia dar esse gostinho pra ele.
Ele havia sumido do mapa e partido o coração da jovem. Bela acabou se recuperando, mais rápido do que imaginava. Foi usada, se sentiu usada, mas resolveu se reafirmar pensando, “pelo menos eu dei”. Depois ela voltou a ser ela mesma, cativante por fora e uma pedra por dentro. Além disso, também aprendeu uma lição: Príncipe encantado, só em filme e em conto de fadas.

(Crédito Imagem: ImageBank-Bruno Muff)

quinta-feira, 5 de março de 2009

A Praia

Por Mônica Salmazo
     
O litoral. O sol, as ondas, as pessoas e o cheiro agradável da maresia misturado com o pastel gorduroso da tia Paula, aquela mulher fantástica com suas calças justas, levantando toda aquela formosura de 50 anos e 200 quilos impecáveis. Seu pastel vende bem na praia, virou atração, assim como o vendedor de coxinha, quibe, esfirra, enroladinho e tudo o que tiver de mais gorduroso.
      Na ponta da praia as pessoas são mais econômicas, levam seu alimento da própria casa. Aaaaaaaai que beleza! Não tem nada melhor do que ver aquela tia passando maionese no pão e enchendo de condimentos inimagináveis. Coloca tudo na sacola junto com o frango, a farofa, o pão com atum, o refrigerante e a cerveja foram colocados no isopor, comprado no mesmo supermercado da cidadezinha natal, pois lá é mais barato né.
      Vão todos para a praia, leva a sacola com o almoço e o café da tarde, com as bebidas pro dia todo, as cadeiras de supermercado, os chinelos, os maiôs gigantes cor “celulite viva” e biquínis “vejam minha coleção de estrias”. As crianças levam bóias pra brincar no raso e as mães começam um ritual sagrado de passar protetor na mulecada. Após longos e infindáveis minutos sendo amaçadas, esfregadas, cuspidas pelas broncas do “fica parado menino”, “assim eu não consigo passar”, “vê se não responde a sua tia, ela só está te oferecendo um frango com guaraná”, então, finalmente, elas ficam prontas: um bando de anões brancos correndo pela praia gritando “mãããããããããããeeeeeeeeee, olha pra mim mãããããããããeeeeeeee, mãe, mãe, mãe, mãe, mãe, mãe, mãe, mãe...”.
      A sacolinha do lixo começa a encher, embalagens de papel alumínio e papel filme se misturam às garrafas de refrigerante e os copinhos plásticos, as latinhas de cerveja já foram recolhidas para a prima da roça fazer bolsas e roupas com anéis da lata e o resto da embalagem vai para a coleta da cidade que paga 0,0000002 centavos por cada uma.
      Na praia você pode encontrar também os tradicionais camelôs, vendem óculos escuros a “10 reaus e 20 reaus os bãos”, tem de tudo, até mesmo a bolsa de anéis da sua prima do interior. Tem saia-cinto, daquelas que você não descobre se era pra ser uma saia ou então um cinto, mas que todas as piriguetes usam; tem o vestido cortina, você não sabe se era pra ser um vestido pra ficar limpando casa ou se coloca na janela pra fazer de cortina; cangas ma-ra-vi-lho-sas que se parecem com calças, na verdade elas podem ser os dois, ora saia, ora calça, o importante é que tem tecido pra se fazer uma rede das boas e deitar a tarde toda enquanto come o bolo de fubá delicioso que trouxeram lá de casa.
      Com todas as suas belezas o litoral brasileiro ainda é um ponto turístico muito visado pelos estrangeiros, que podem comprar mercadorias a preço de bananas, ou em pastéis da tia Paula.

Sessão nostalgia

Por Sarah Menezes

A mola-maluca, é difícil encontrar alguém que em sua infância não tenha se divertido com esse brinquedo. Ao iniciar uma sessão nostalgia a primeira coisa que me veio a mente foi esse brinquedo peculiar, colorido, no qual eu passei inúmeras tardes brincando.
Mergulhando em minhas lembranças um brinquedo que marcou várias aventuras surgiu, a minha motoca, ou velotrol como também é bastante conhecido. Lembro de andar em cima dela por toda a casa, rodeando a mesa da cozinha, zanzando de lá para cá na sala enquanto minha mãe assistia TV, e toda minha euforia vinha à tona quando eu podia correr para cima e para baixo com toda a velocidade pelas calçadas do meu bairro, isso realmente me deixava alegre.
Lembro de cada detalhe daquele brinquedo que eu adorava, ela era azul com as três rodas vermelhas, pequenina, com vários adesivos de desenhos que eu própria colei para dar um toque final em seu estilo e deixá-la com a minha cara.
Me diverti tanto com esse brinquedo que, quando já estava mais velha e crescida lembro de vê-la toda acabada, com alguns furos em suas rodas, toda desbotada, os adesivos já haviam se descolado, e os que restaram já estavam todos rasgados, pela metade, sobrando apenas a cola grudada na motoquinha, a deixando ainda mais acabada.
Foram vários momentos divertidos que eu passei em cima daquele brinquedo, e os guardarei com toda a felicidade e carinho em minha memória.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Os outros

Por Maria Gabriela Brito

De sua turma nunca foi a mais bonita, porém Carol sabia o que queria, e acreditava nela mesma para conseguir. Além disso, tinha um instinto de liderança, e sua personalidade visível a deixava mais atraente. Ela se preocupava com todos ao seu redor, e sempre ficava satisfeita quando os outros estavam satisfeitos.
Quando tinha lá seus quatorze anos, estudava em uma escola próxima a um cursinho pré-vestibular. Todos os dias ela via passar por ali um rapaz lindo de mãos dadas com sua namorada. Carol gostava de ter metas e fazer o seu melhor para atingi-las. Falava para suas amigas que aquele deus grego seria dela um dia.
Carol não voltou a ver o rapaz depois daquele ano, mais tarde acabou mudando de escola, nem lembrava mais dele. Fez novas amizades, que acabaram tornando-se eternas. Os antigos amigos também não ficaram para trás. Como já dito antes, ela era o tipo de pessoa que não deixava ninguém para trás.
A jovem estava em uma fase boa. Gostava de curtir um happy hour com as amigas no final de semana. Em uma dessas noitadas de sábado, ela e mais duas amigas foram aproveitar a night em uma balada da moda. Dançavam empolgadas quando uma das meninas deu um grito ao ver um grande amigo que não via há anos. Carol deu um grito ao ver que seu antigo deus grego acabava de entrar na boate. A outra deu um grito ao se assustar com o grito das outras duas.
Carol acabou descobrindo que o rapaz que ela sempre via com a namorada no final da aula era o grande amigo de sua amiga. “Que bom que esse mundo é pequeno”, ela pensou. Naquele dia ela agarrou a oportunidade e conseguiu o que tanto queria há algum tempo. Depois daquilo não se viram ou se falaram mais. Ela até pensou em ligar algumas vezes, mas muitas outras coisas aconteciam em sua vida e ela o esqueceu novamente.
Quando estava no último ano da escola, aquele belo rapaz reapareceu em sua vida. Ficaram e ficaram, começaram a namorar. Formavam um belo casal. Carol e Fernando davam certo onde estivessem. Foram se apaixonando cada vez mais um pelo outro. Qualquer um podia sentir amor quando estava na presença deles. Ele não vivia sem ela, e ela não vivia sem ele.
Naquele ano o pai de Carol faleceu, e sua mãe mal parava em casa, mas Fernando esteve ao seu lado em cada segundo. Ela havia mudado um pouco, tornado-se mais nervosa, mas ele nunca perdeu a paciência com ela, por mais que ela o tentasse. As brigas eram constantes e normais como em todo relacionamento. Quando ela terminou a escola, os dois entraram juntos na faculdade, entretanto, cada um em uma cidade, ele saiu da terra natal, e ela ficou.
O amor dos dois ainda estava lá, só que eles não sabiam mais onde procurar. As brigas foram aumentando devido à distância física e tornaram-se cada vez mais sérias, várias pessoas começaram a se envolver e dar palpites. Ela pisava na bola com ele, e ele já não mais tão paciente não deixava em branco e dava o troco cinco vezes pior. Todos queriam saber o que acontecia entre eles, e que crise era aquela que afetava aquele amor antes tão intenso e tão bonito.
Na verdade o amor era o mesmo, mas eles começavam a crescer e o relacionamento continuava imaturo. Muita gente falava para Carol esquecer Fernando, dizendo que ele só fazia mal para ela. Talvez aquilo fosse verdade, e ela decidiu terminar. No fundo não parecia certo. Vários meses depois Fernando voltou para a cidade, dessa vez para ficar, desistiu da faculdade. A partir de então, os dois passaram a se encontrar escondidos. Nem a família e nem os amigos de Carol aprovavam o relacionamento deles.
A menina já não suportava mais esconder o que sentia por Fernando, decidiu lembrar quem ela era: autoconfiante! Assumiu para todos novamente um relacionamento com ele que prometia dar certo dessa vez. Um ano se passou diante dos olhos deles, e o namoro começava a desandar novamente. Os palpites alheios enchiam a cabeça de Carol, e ela via que não podia mais agradar a gregos e troianos.
Com tanta gente envolvida em seu relacionamento, ela não sabia que caminho tomar. De um lado estava Fernando, e aquele sentimento que era muito mais forte do que ela, de outro estavam os outros, que não sabiam o que passava na cabeça da jovem e nem como ela se sentia de verdade. Pela primeira vez na vida ela não era líder de nada e não conseguia decidir o que fazer. Não tinha forças para lutar por ele. Ela terminou novamente. Mais uma vez, aquilo não parecia certo.
Durante anos Fernando procurou Carol, ela o ignorava o máximo que conseguia, mesmo que aquilo a machucasse demais, principalmente por saber como o machucava. Algumas vezes ela não resistiu e saiu com ele sem que ninguém soubesse. Fernando pedia desculpa por tudo que acontecera entre eles, e implorava para tê-la de volta. Ela sabia que o desfecho daquilo era culpa dela, mesmo ela fazendo parecer ser culpa dele.
Depois de tudo, ela escolheu ser infeliz e deixar os outros felizes, como havia feito a vida inteira. Acabou se casando com outro, mas nunca esqueceu ou deixou de amar Fernando. Ele por outro lado, escolheu esperar Carol por toda a vida, na esperança de que um dia ela voltasse para ele.

sábado, 3 de janeiro de 2009

O Osama de Copacabana

 Por Maria Gabriela Brito

Eu compartilhava um espírito de renovação com mais um milhão e meio de pessoas que aguardavam ansiosas pela contagem regressiva para a chegada de 2009. Com pés descalços nas areias de Copacabana eu me divertia com pessoas que conheci. Observei alguns, ignorei outros, mas entre aquela multidão vestida em branco, um senhor abatido me chamou a atenção.
Sem sapatos, bermuda tactel surrada e uma camiseta enrolada na cabeça. A peça de roupa parecia um turbante, e quem estava em volta não pôde deixar de apelidá-lo de Osama Bin Laden. Os que olhavam para ele achavam que era mais um mendigo bêbado, talvez drogado. Mais um louco num mundo rotulado “normal”. Confesso que simpatizei com Osama, que mais tarde se apresentaria como Antonio, o arquiteto.
Quando veio conversar comigo, esquivei, fiquei com medo e não vou mentir, realmente o rotulei. Entretanto, resolvi dar uma chance àquele senhor. “Qual é tua graça?” foi o que ele me perguntou. Acabei descobrindo que no Rio, ele queria saber meu nome. “Gabriela” retruquei. Ele repetiu em voz alta como quem procurasse o que dizer em seguida.
Esperei ouvir idiotices, mas aproveitei para dar boas risadas. O caso é que Osama disse que tinha alguns recados para mim. Em um ambiente de comemoração ele me fez sentar na areia daquela praia e ouvir o que ele tinha a dizer. Olhando firmemente nos meus olhos ele disse que uma Santa cuidava de mim: Maria de Fátima. Fui informada por amigos, que ela também é a Nossa Senhora do Rosário, ou Virgem Maria, ou como preferir, já que tem mil derivações de nomes que se referem exatamente a mesma santa.
Ele seguiu afirmando com todas as forças que alguém me ama muito e está muito próximo, mas eu não sou capaz de enxergar. Continuou dizendo que um familiar preza a minha felicidade, podia ser um tio ou avô. Ouvi com atenção, apesar de estar achando tudo extremamente irrelevante. Foi quando ele me disse uma coisa que realmente me tocou.
“Você ainda vai fazer muito bem para o mundo”. Se isso é verdade ou não, ainda não sei, mas quando chegou a hora da contagem regressiva e todos esperavam ansiosos por aquela maravilhosa queima de fogos, eu pensei no que ele me disse. Talvez ele fosse mesmo um louco falando bobeiras da boca pra fora. O caso é que a situação misturada com a vontade recomeçar em mais um ano novo, me fez realmente querer fazer bem para o mundo.
A energia que a passagem do ano trás causa em cada um uma vontade de seguir em frente, trás forças. Alguns aproveitaram para fazer promessas, outros pedidos e simpatias. Eu pulei as tradicionais sete ondinhas (pra mim e pra algumas amigas). Nem todos tiveram um Osama para ler o futuro (diga-se de passagem, o meu promete ser grandioso), mas cada um a sua maneira buscou meios de ser melhor em 2009.
Durante os 10 segundos para a chegada do novo ano, eu senti que o Rio de Janeiro compartilhava comigo aquele espírito de paz e renovação. Naquela hora eu percebi que o mundo podia ser melhor, bastava cada um fazer a sua parte. E o Osama já garantiu que eu vou fazer a minha.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Maria

Por Maria Gabriela Brito

Quando nasceu sua mãe não pensou duas vezes ao escolher seu nome: “Maria, como a santa”. O pai era um pobre coitado que mal tinha onde cair morto, a mãe era uma órfã herdeira de uma grande fortuna. Despreparado e apavorado, o pai fugiu sem deixar rastros, abandonando Maria e sua mãe.
As duas eram a única família uma da outra. Maria foi criada no conforto e no carinho da mãe. Estudou nas melhores escolas. Porém, a menina sempre fora meio perturbada, a ausência do pai e a falta de outros familiares mexiam com a cabeça dela. Na formatura do terceiro colegial, Maria observou as mesas de seus colegas: lotadas. A dela: duas cadeiras, ela e a mãe.
Aos dezessete anos, não agüentava mais aquele ambiente, ela e a mãe, ela e a mãe. Era muito grata a tudo que possuía, havia sido muito bem criada, mas aos poucos foi saindo de casa e procurando outras bandas. Começou a freqüentar boates gays, onde a moral era outra e a orgia corria solta.
Beijou meninas, beijou meninos, beijou gays, cheirou pó. A mãe não percebia a situação em que a filha estava. Maria sabia disfarçar: o nome e a cara eram de santa. Começou a vender seu corpo. Conheceu meninas que faziam o mesmo, porque ela também não podia? Dinheiro era a última coisa que ela precisava, mas ela gostava de um capricho.
Maria era um prato cheio para qualquer psicólogo, a ausência do pai causava nela uma busca incessante por uma presença masculina. Aos dezoito anos, sexo era tudo o que passava pela sua cabeça. A faculdade particular de engenharia mecatrônica fora mais um motivo para procurar homens. O curso era formado por 94% de homens e 93% já haviam passado a noite com Maria.
Aqueles gritos a enfeitiçavam enquanto ela estava em ação: “Maria!”. Ganhou muito dinheiro com o que fazia. Ás vezes ela não cobrava. Passou a freqüentar novos lugares, conhecer homens mais velhos. Aqueles meninos já não sabiam satisfazer seu desejo. A mãe já era uma completa ausente em sua vida. Maria nunca estava em casa, inventava trabalhos e trabalhos para manter-se afastada e a noite procurava quem iria saciá-la.
Foi em um desses botecos baratos que Maria conheceu Humberto. Quarentão atraente. Cabelos semi-grisalhos bem aparados, rosto jovial, pele morena e corpo de trintão. Maria não hesitou em puxar papo. Humberto logo se atraiu pelas pernas grossas e torneadas e seios fartos de Maria. A pele branca e os cabelos escuros, deixavam visíveis os olhos verdes marcantes, realçados por lápis e rímel preto.
A conversa foi longe, Maria não conseguia mais conter a vontade de ter aquele homem dentro dela. Convidou-o para ir até sua casa, onde sua mãe dormia tranquilamente. Ao entrar pela porta grande de madeira, Maria deparou-se com uma luz acesa, a mãe estava concentrada na leitura de um livro, Maria tentou subir para seu quarto sem barulho, mas Humberto ficou parado observando a casa.
“Adriana?”, falou Humberto indignado. A mãe de Maria, sentada de costas para a porta por onde eles entraram, olhou por cima dos ombros e não pode acreditar no que seus olhos estavam vendo. O pai de Maria. Adriana viu os dois de mãos dadas e descontrolada perguntou o que Maria fazia com ele. A garota sem saber o que fazer, fitou os dois e soltou a mão de Humberto agressiva.
“Quem é ele mãe?”. “Mãe?”. Humberto não podia se conter mais diante da presença da filha que ele abandonara vinte anos atrás. “Seu pai” falou a mãe já não conseguindo esconder as lágrimas de pavor pela situação. “O que você fez com ela?”-“eu não encostei nela, Adriana”.
Maria observou a cena que sempre quis vivenciar: uma briga de pai e mãe, mas aquilo não era bem o que ela imaginava, quase fora para cama com seu pai, sentiu tesão por ele, aquilo era repugnante. O tão esperado encontro entre pai e filha aconteceu da pior maneira possível. Adriana mandou Humberto para fora de suas vidas e afirmou que ele já havia causado sofrimento o suficiente.
Humberto, que ainda não queria a responsabilidade de uma filha, sumiu mais uma vez, sem deixar rastros. Maria e a mãe nunca mais tocaram no assunto. Maria graduou-se com vinte e dois anos e nem o mundo, ela ou a mãe a consideravam mais uma santa como quando nasceu.