sexta-feira, 21 de maio de 2010

Só se divertir

Por Maria Gabriela Brito

Naquele dia tudo deu errado. Ela já acordou mal humorada depois de levantar da cama e tropeçar em um dos peep-toes laranja jogado no chão e torcer o pé. Ficou roxo. Pronto, agora ela não poderia usar salto alto para ir trabalhar, que beleza. Após o desastre sem tamanho, ela andou mancando até o banheiro para escovar os dentes, mas quem disse que tinha pasta dental? Ela procurou em toda a casa e nada. Teve que fazer um gargarejo com Cepacol.


Conformada em ir trabalhar de sapatilha e mau hálito, entrou no carro e seguiu caminho torcendo para que nada mais desse errado. No trânsito um ônibus tombou e travou toda a marginal em que ela estava. Não tinha para onde ir, só esperar. Tentou ligar para o trabalho e avisar que chegaria atrasada, mas a bateria do seu celular havia magicamente acabado. Chegou ao escritório e deu bom dia a todos, fazendo o possível para evitar o contato pessoal com alguém, já que não havia escovado os dentes e nem comido nada, então estava com aquele delicioso hálito matinal.

Sentou em sua mesa, ligou o computador e pediu a assistente para comprar uns pães de queijo, o estômago estava gritando de fome. Quando o café da manhã chegou, ela praticamente devorou tudo de uma vez. Mal terminou a última dentada e o chefe a chamou para uma conversa em particular. Ela foi para a sala dele ainda terminando de mastigar o pão de queijo macio e quentinho. Estava até se conformando de estar de sapatilha.

Entrou no cômodo gigante e totalmente branco. Com as janelas tão grandes que pareciam paredes de vidro, da qual ela enxergava toda a cidade. Sempre gostou daquela vista, e imaginava o dia em que ocuparia o local, não como uma assistente de compras, mas como a compradora oficial do setor feminino da Ralph Lauren. Sentou na cadeira de couro em frente a mesa do chefe, pensando que seu dia talvez não estivesse tão ruim se ela ganhasse uma promoção.

Quando ele abriu a boca foi o mesmo que jogar um balde de água fria em sua cabeça. Ele queria demiti-la. Inacreditável! Ela podia ao menos estar usando salto alto. Quando ouviu a notícia, os olhos grandes, cor de mel tomaram uma cor dourada brilhante, e se encheram de lágrimas, mas ela segurou e saiu da sala. Saiu de lá com tanta raiva que não quis nem saber por que estava sendo mandada embora.

Foi para seu cubículo e sentou-se em sua cadeira. Descansou a cabeça nas mãos por um tempo, depois levantou o rosto e fez um rabo-de-cavalo nos longos cabelos castanhos. Respirou fundo e recolheu seus pertences da mesa. Foi embora sem despedir-se de ninguém. Desceu do escritório pelas escadas. Quem sabe pelo menos assim sua bunda ficasse um pouco mais malhada. “Desempregada, mas com um bom traseiro”, pensou ela.

Chegou ao estacionamento entrou no carro e ligou-o. Saiu acelerando do prédio, e mostrando um dedo um pouco indecente a ninguém em especial. Abriu o vidro das quatro portas e ligou o som na maior altura. Parou em um sinal vermelho e em seguida outro carro encostou ao lado do dela. Foi aí que começou a tocar uma versão muito animada e divertida de “Girls just wanna have fun”.

Ela começou a gritar e cantar como uma louca e aumentou ainda mais o som. O cara do carro ao lado ficou olhando assustado para ela. Por um momento ela olhou para ele e ficou sem graça. Estava a ponto de abaixar um pouco a música e adquirir uma postura decente, mas logo passou. E quer saber? Ela não estava nem aí. O sinal abriu e ela seguiu gritando a música e pensando como Cyndi Lauper tinha razão, ela também só queria se divertir.

Blog da Quinzena

O Blog desta quinzena provou ser bom de briga!

No meio de cinco outros blogs que concorriam na Expocom Sudeste 2010, ele foi o escolhido e classificado para a Nacional!
O Delírios era um de seus concorrentes, e apesar de não termos nos apresentado, reconhecemos que o Bangalô de Flores foi merecidamente campeão.

O espaço está preocupado em informar ao seu leitor movimentos e organizações sociais da zona da mata mineira. "A idéia é que esta página se torne uma casa virtual dos movimentos sociais aqui presentes".

Três blogueiros alimentam o site, e o Delírios os parabeniza pelo trabalho e esforço!

Parabéns ao Bangalô de Flores pelo prêmio e pela qualidade de seu conteúdo.

E galera, boa sorte em Caxias do Sul, estaremos torcendo!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A Novata

Por Sarah Menezes



Ela já havia sido avisada. Mas não tinha noção que poderia ser daquela forma. Fazia apenas uma semana que Beatriz tinha conseguido um trabalho na prefeitura. Há alguns meses ela estava na busca por um emprego, quando este surgiu, ela se encheu de energias e começou a trabalhar com toda dedicação.

Bia estava empolgada, acordava todos os dias 1h30 antes de começar o trabalho, se preparava caprichosamente, deixava os problemas em casa e ia para ofício de cada dia com as energias renovadas, disposta a dar o melhor de si. Mas logo na chegada ela tomava um banho de água fria. Com 23 pessoas trabalhando no seu departamento, a um bom dia apenas 3 ou 4 gatos pingados respondiam, o restante continuavam com a cara fechada, concentrados em seus computadores, ignorando tudo e todos aos seus redores.

A novata não entendia o que estava acontecendo, se indagava sobre o que tinha feito para ser ignorada daquela maneira.

Com tanta energia negativa, Beatriz ficava atenta a todas as conversas, e quando começavam cochichar seu coração disparava, lhe vinha um medo que ela não sabia de onde. Pensava que estavam falando mal dela, de seu trabalho, desempenho, chegava até a achar que os olhares sobre elas eram tortos, de reprovação.

Amigas de longa data, que já ocuparam a mesma função que Bia ocupa, no mesmo lugar, alertaram-na para esse clima de superioridade e prepotência dentro desse ambiente de trabalho. Ela só não imaginava o que poderia acontecer, não mensurava o quanto as pessoas são arrogantes e sem educação.

Em meio a tanto olho gordo, invejoso e maldoso a jovem continuava seu ofício, tentando ignorar o que lhe fazia mal. Em seu segundo dia de trabalho Beatriz chega na sala e se depara com uma mudança, seu setor estava sendo transferido de local.

Mesa para um lado, computador para o outro, papéis e mais papéis junto com um monte de bagunças da mudança. Sala nova, o que restava agora era organizar tudo, cada coisa em seu lugar. Como em toda mudança, as coisas levam algum tempo pra se ajeitarem por completo, e nesse meio tempo Bia ficou sem computador, e seu chefe lhe permitiu que usasse quaisquer computadores que estivessem vagos no departamento. Durante 2 ou 3 dias ela ia para o trabalho apenas bater cartão, e ficava por lá para cumprir horários e a espera de um computador vago. Quando um ia embora, ou se ausentava por qualquer motivo, ela aproveitava pra usar o computador disponível, para checar e-mails e agilizar algumas coisas do seu trabalho.

Em um desses dias que ainda não tinha conseguido um computador próprio, uma manhã ensolarada, daquelas que desde as 8h você já se irrita com a intensidade do sol, a moça chega na Prefeitura e senta-se no sofá par ver os jornais. A responsável pelo administrativo, uma senhora com seus 40 e poucos anos, magra, alta, loira de cabelos encaracolados e curtos, dona de uma aparência não muito amigável, com o rosto cheio de linhas de expressão mais parecendo uma casca de mexerica, e totalmente démodé, com o nome de Horminda, se ausenta do departamento para ir ao médico, e estava precisando mesmo, para ver se melhorava aquela aparência.

Aproveitando o ensejo, Beatriz senta-se no computador de Horminda, confere seus e-mails, conclui tarefas e fica navegando pela internet. De repente ela começa a sentir um desconforto, algo começa a se retorcer dentro de sua barriga, passa a sentir calafrios e, sem ter como controlar sai às pressas para o banheiro. Mal sabia ela que isso poderia ser um sinal do que estava por vir. Ao retornar encontra Horminda, prostrada em frente ao computador, com cara de muito poucos amigos e fúria. Bia foi logo se apressando para sair da internet e liberar o computador. Chegou perto de Horminda e disse com toda educação e delicadeza:

- Desculpa, já estou saindo aqui para você usar.

E com toda a falta de educação, mal humor e respeito ela responde em alto e bom som:

- O que você está fazendo na frente do meu computador? Quem te deu permissão? Você está muito abusadinha para o meu gosto para quem é novata no ambiente. Não aceito pessoas do seu nível sentadas no meu lugar, nem mesmo ao meu lado.

Bia, transtornada de vergonha e raiva, vira um tapa na cara de Horminda com toda sua fúria. Descontroladas elas caem no chão, aos tapas, murros e puxões de cabelos.

A novata perdeu o emprego, mas saiu satisfeita por deixar um olho roxo na malvada.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

V ou T?

Por Mônica Salmazo

E se ela descobrir?
Era tudo o que se passava na cabeça de Valentina enquanto Rodrigo dedilhava suavemente seus dedos sob sua meia 7/8. As pontas de seus dedos eram quentes, mas nada comparados aos lábios ardentes dele. A culpa remoia sua cabeça, mesclava-se com o desejo que tinha de devorá-lo inteiro. O que será que se passava na cabeça dele? Será que ele não tinha medo ou receio de estar fazendo isso? Por que doía tanto? Por que as coisas deveriam ser dessa forma?
Em meio a perguntas e respostas vazias, suas mãos apertavam as costas dele de uma forma agressivamente delicada. Sua pele estava arrepiada de tanto sentir aquele corpo quente junto ao seu. Sua cabeça era jogada para trás enquanto seu corpo apoiava-se no sofá da sala de estar, o vestido estava na sua cintura e a camisa dele jogada ao chão, denunciando o óbvio.
Seus lábios tremiam enquanto ela os mordia levemente, era tão bom, era tão gostoso. Os olhos claros de Rodrigo a olhavam com tal profundidade que parecia deixá-la nua, transparente, impossibilitada de pensar ou dizer qualquer coisa. A língua dele descia por seu pescoço fazendo-a revirar os olhos enquanto ele apertava sua cocha com as mãos.
O zíper do seu vestido começou a abrir vagarosamente. Como uma provocação ele ia beijando cada centímetro do seu corpo. Se as pessoas soubessem o que estava acontecendo na sala ao lado talvez não ficassem muito orgulhosas de Valentina.
Com uma experiência incrível Rodrigo a virou e mordiscou suas costas de modo delicado. Tão delicado que fazia Valentina esquecer do resto do mundo. Ela queria sentir apenas o hálito quente e refrescante que saía da boca dele.
O barulho dos convidados era cada vez mais alto. Pessoas embriagadas rindo falsamente uns para os outros, enquanto desejavam votos que acreditavam nunca tornarem-se realidade. O ser humano tem a péssima mania de seguir seus interesses ao invés de sua intuição. Mas isso não importava agora.
Em um compasso constante ele a tomou no colo e sentou-se no sofá. Os cabelos bagunçados, sendo puxados para trás pelas mãos fortes dele, um jeito delicadamente selvagem de dizer que a desejava. Ela gostava disso.
A respiração estava cada vez mais ofegante, a pele mais quente, os lábios tremiam e as mãos queriam pegar algo que não sabia o que era, mas desejava. E como desejava! O vestido azul marinho de seda caiu dos ombros e se acumulavam na cintura enquanto mostrava suas pernas nuas.
Não agüentava mais toda aquela pressão, não agüentava mais estar ali, não agüentava mais ter que esconder toda essa vontade. Simplesmente não agüentava mais. E foi em meio a toda essa vontade que Tatiana abriu a porta e viu os dois abraçados e seminus no sofá da sua casa.
Toda uma história passou por sua cabeça. Como conhecera Rodrigo, todas as flores que havia ganhado, todos os beijos quentes, a noite que perdeu a virgindade com ele, o baile de formatura, as viagens, os acampamentos, as escapadas no barco da família, os passeios no meio do dia, a traição.
Dupla traição.
Como uma onda que surge do fundo do oceano e ganha força na superfície as lágrimas começaram a transbordar dos seus olhos. Valentina e Rodrigo pararam e a encararam. O silencio dominou o ambiente.
Em questão de segundos Tatiana estava longe dali. Justo meu namorado e minha amiga? Justo no dia do meu aniversário? Justo comigo?
Era impossível isso estar acontecendo, simplesmente impossível!

TO BE CONTINUED

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A vendedora

Por Maria Gabriela Brito


Todos os dias daquela última semana quando passava por aquela rua a caminho do trabalho ela o via. Ele ficava ali, estático esperando por ela à porta daquela boutiquezinha barata. O local era apenas uma entradinha feia e sem graça, perdida no meio daquela rua comercial movimentada de lojas e vitrines atraentes.

Por várias vezes ela desejou parar, mas seu horário apertado não permitiu. Como era doído vê-lo tão lindo ali dando sopa para qualquer outra que poderia aparecer casualmente e arrastá-lo boutiquezinha afora. Naquela manhã antes de sair de casa, ela não suportou e prometeu parar e levá-lo embora com ela.

Ele tinha que ser seu! O percurso foi demorado. Ela estava tão ansiosa com a idéia de tê-lo só para ela que a barriga remexia insistentemente de uma maneira tão desagradável que a deixava enjoada. Passou esperançosa pela loja, mas ele não estava lá. Alguma vadia com certeza tinha visto nele a beleza exótica que ela avistou de primeira no começo daquela semana.

Foi embora derrotada e sem ânimo. Dali para frente suas manhãs seriam muito vazias e sem graça. No outro dia, triste como estava quase desistiu de passar por aquela rua que traziam tantas lembranças, mas pensou que seria inútil e uma hora teria que superar. Quando estava praticamente em frente à lojinha decidiu parar e perguntar. Às vezes alguém ali poderia ter notícias dele. Estacionou o carro e desceu.

Atravessou a rua cheia de pensamentos positivos. Ela havia lido em um livro que o universo conspira a nosso favor quando pensamos positivos, talvez com ela funcionasse também. Entrou na loja e atrás do balcão estava uma mulher de uns 40 anos. Cabelos loiros bagunçados em um rabo de cavalo mal feito.

Ela usava um batom rosa escuro cintilante que com certeza não havia sido moda nem na década de 80. O rosto era redondo e muito branco. Vestia uma camiseta amarela regata apertada demais para seu corpo rechonchudo, e uma bermuda jeans azul clara de lycra que não lhe caia nada bem.

Ela perguntou por ele, e a vendedora respondeu com uma voz chata e aguda, que seria impossível de ouvir por mais de trinta segundos.

-Há querida, eu me lembro dele sim, acho até que ele está por aqui, espera um minuto que vou procurá-lo para você. – Grunhiu a mulher.

Ela ficou extasiada com a idéia de poder vê-lo novamente. Sentiu de novo aquele embrulho no estômago.

A vendedora desapareceu atrás de uma parede e retornou após alguns infinitos segundos. Lá estava, ainda mais bonito do que ela se lembrava. Tinha que ser dela.

-Quanto é?

-R$139,90, mas posso dar um descontinho à vista.

-Oi?

Tudo bem, o vestido era lindo, mas não valia mais do que uns quarenta reais, ainda mais naquela lojinha feia e com a pintura descascando. O vestido era curto, de um tecido vagabundo, mas com uma bela estampa de oncinha. O corte e o caimento eram legais, mas com certeza não valia aquilo tudo.

Percebendo a indiginação da moça, a vendedora pegou a calculadora e fez algumas contas que só ela mesma entenderia, e disse que faria o vestido por noventa reais.

-Leva querida, vai ficar lindo em você. – Que lábia!

-Eu to achando um pouco caro, esse tecido não é de boa qualidade.

-Querida, você não está entendendo, esse vestido é MGucci.

-Oi?!?

A mulher disse aquilo como se ser “MGucci” fosse o que todo vestido quisesse ser. E o que era MGucci afinal de contas?

A peça não valia o preço, e ainda era de uma marca totalmente desconhecida que agia como se fosse o auge do momento, mas ela não agüentava mais ouvir aquela voz irritante e preferiu não discutir moda com uma maluca que usava batom verão mil novecentos e nunca.

Comprou o vestido e foi embora aliviada. Não por finalmente ter a peça, mas por ter se livrado da visão daquela breguice ambulante e de sua voz insuportável.

Chegando em casa foi que ela se deu conta. Realmente havia comprado o vestido. Desembrulhou o pacote e olhou a peça. Um pouco revoltada, um pouco feliz e muito suspresa com a astúcia da mulher, pensou:

- Vendedora esperta do c******!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Blog da Quinzena

Fluidez: A palavra que define o blog desta quinzena. O Misquilinas de Bruno Reis mereceu este posto. O blogueiro usa o espaço como coluna, diário, jornal! Ele é um dos que realmente sabe aproveitar o blog. Fala de música, de cinema, de coisa importante ou de futilidades, seja para criticar ou elogiar.
Seu texto flui tão naturalmente que é impossível não ficar envolvido com a opinião dele.
É com muita satisfação que indicamos o Misquilinas para o leitor do Delírios!

Acessem que vocês vão gostar!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tudo em Família


Por Sarah Menezes   
          Em meio à estrutura familiar um tanto quanto confusa, Priscila cresceu uma menina recatada, séria, sem aquele brilho que a simpatia trás. No entanto, sua doçura, inteligência e esforço sempre despertaram admirações alheias. Além de ser dona de uma beleza invejável.
            Filha de pais separados, a jovem garota de 23 anos foi criada com a mãe Ana Cristina e a irmã Thaís que, por sua vez, é irmã de Priscila apenas pela parte materna. Priscila tem mais 3 irmãos e Thaís mais 2 irmãos. São filhas únicas, mas com uma penca de irmãos. Um rolo que até Deus se confunde na hora de tentar entender.
            Apesar de não correr nas veias 100% do mesmo sangue, Priscila e Thaís cresceram muito unidas. A afinidade entre as duas sempre foi algo admirável. Na cabeça delas, quando o assunto é irmandade a primeira e única pessoa que vem a mente de uma, é a outra. Não que não gostem ou desconsiderem os outros irmãos, mas no fundo dos corações das duas, somente elas que são parte da mesma família (dentro de casa), afinal a vida inteira sempre foi Ana Cristina, Priscila e Thaís. Só. Mais ninguém participava dessa família que, por sinal, era muito unida.
            Mesmo não sendo criadas com os pais, Ana Cristina sempre fez questão que suas filhas mantivessem um contato muito próximo com eles. Passavam alguns finais de semana em companhia dos irmãos, pai e madrasta. Em festas e datas comemorativas as famílias sempre se encontravam e os irmãos se misturavam. Nesse momento ficava difícil até para Priscila e Thaís distinguirem quem era irmão de quem.
            Nascidas e criadas no interior do Paraná, foram para São Paulo ainda meninas. Apesar de deixar pai e irmãos na cidade natal, elas nunca os abandonaram, passavam todas as férias com eles. Priscila se sentia tão à vontade na casa do pai de Thaís quanto Thaís na casa do pai de Priscila e, por isso, passavam juntas às vezes uma temporada na casa do pai de uma ou de outra.
            Com a adolescência e responsabilidades chegando, as irmãs perderam um pouco o contato uma com a família da outra. Apesar de sempre permanecerem unidas o convívio com pai e irmãos uma da outra foi ficando cada vez mais escasso. A infância e as histórias vividas juntas trataram de ficar na memória.
            Priscila estava se formando e, como era de se esperar, na lista de convidados apareciam o pai e irmãos de Thaís. Super lisonjeados, a família compareceu em peso, não faltou ninguém para prestigiar aquela menininha tímida, recatada, de poucas palavras e inteligentíssima, que agora tinha virado uma mulher linda, ainda séria e reservada, porém muito atraente.
            Com a correria das festas e eventos, Priscila só teve oportunidade de encontrar todos os seus convidados no baile. Lá ela reencontra o pai e os irmãos de Thaís após 4 anos sem vê-los e, para sua surpresa, Leonardo (o irmão mais velho de Thaís) está irresistivelmente lindo. Ela não conseguiu entender o que passou dentro de si quando reencontrou o rapaz, mas soube que ele mexeu com ela. Mesmo assim, por causa de sua timidez e seriedade, não manifestou nenhuma reação.
            O que Priscila não sabia era que o mesmo havia acontecido com Leonardo ao vê-la. Porém, como um bom galanteador e cheio de atitude, não pensou duas vezes antes de tentar se reaproximar da bela moça que, em um passado não muito distante, era considerada como irmã pra ele.
            Leonardo chegou com assuntos do passado, depois começou a questionar sobre o presente e futuro de Priscila. Uma gostosa conversa se desdobrava quando Priscila lembrou-se de que era sua festa de formatura e, portanto, deveria dar atenção à todos seus convidados.
            No dia seguinte todos partiram de viagem e as únicas palavras que trocaram foi um: - Adeus, até mais. Entre olhos tristes e coração apertado. A vontade de Leonardo era de envolvê-la nos braços e dizer o quanto ela havia mexido com ele, o quanto ela faria falta mesmo apesar de poucos minutos de conversa que mudaram-no.
            Leonardo estava apaixonado, perdidamente encantado por Priscila, então decidiu desabafar e pedir ajuda para a irmã. Ao contar o que estava acontecendo, Thaís parecia não acreditar nas palavras que saíam da boca do irmão. Ficou confusa, começou a imaginar como seria se seus irmãos ficassem juntos. Ela acabaria sendo irmã e cunhada dos dois ao mesmo tempo. Que situção!
            Mas por fim Thaís se livrou de preconceitos e hesitações, afinal, qual era o problema dos dois ficarem juntos se biologicamente não eram nada um do outro? Criou coragem e foi ter com a irmã uma conversa séria e sincera, contando a ela tudo o que Leonardo havia lhe dito. Priscila entrou em choque, não imaginava que a paixão era correspondida. Seu coração acelerado e a queda de pressão denunciavam um ar pálido, gélido e confuso. Não sabia se explodia de felicidade ou de tristeza. Era difícil decidir quando estamos em uma situação como essa.
Por fim Priscila optou por seguir sua moral, isso ia contra seus princípios éticos, mesmo que isso significasse nunca ter a oportunidade de ser feliz com seu amado. Apesar da insistência de Thaís ao tentar convencer a irmã a ficar com Leonardo, Priscila estava irredutível e decidida, não ficaria com o irmão de sua irmã jamais.
            Decepcionado, Leonardo passa a perder as esperanças. Tenta interessar-se por outras mulheres, mas nenhuma mexe com ele, nenhuma é tão dedicada, delicada e graciosamente chata como Priscila. Não sabia o que fazer com aquele sofrimento dentro do peito, não dormia, não descansava, não conseguia estudar ou se concentrar. As saídas já não existiam mais, a depressão estava tomando conta dele. Foi quando Leonardo decidiu entrar para um seminário. Ali ele teria certeza de que pelo menos seu amor por Deus seria correspondido.
            Algum tempo após o ocorrido Priscila conheceu outro homem, apaixonou-se e viveu intensamente essa nova experiência. Apesar de sempre ter Leonardo na cabeça ela decidiu ser feliz com outro. Casou-se e deu início a outra fase de sua vida.
            Os anos se passaram. Leonardo estava indo bem no seminário, conseguira um posto confiável e liderava vários seguidores de Deus. Priscila tivera um filho e seguia sua vida familiar e profissional de forma bem tranqüila e simples. Tanto um quanto o outro ficaram extremamente chocados quando o convite de casamento de Thaís chegou. No lugar destinado aos nomes dos noivos cada um leu: Thaís Sodré e Diogo Galvão.
             Priscila desmaia em sua casa. Leonardo solta um pequeno sorriso de canto de boca, sugerindo uma aprovação. Diogo era irmão de Priscila.