sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Tecendo sobre habilidades, ou não!

Por Sarah Menezes
Escrever! Presumo que seja esse o meu destino por vários anos de minha vida, afinal escolhi o como profissão o Jornalismo.
Contar histórias e sucitar discussões, essa é a minha função através dos textos.
Mas como todo jornalista, não me contente em tão somente relatar os fatos, no ato de escrever gosto de explorar a imaginação, viajar por pensamentos e lugares, inventar histórias de amor, desilusão, esperança. Expôr minhas idéias também é algo que me interessa. Conseguir, através das letras, explicar o que idealizo é deslumbrante. Posso fazer isso da maneira que eu quiser, com as palavras que eu quiser e, se mesmo assim, as pessoas me entenderem, saberei que tenho habilidade com a escrita, ferramenta que surgiu desde os primórdios da humanidade e que até hoje é fundamental para a comunicação.
É... inventar, relatar, expôr. Sobre todas essas maneiras de escrever eu já consegui obter um certo domínio. Mas escrever sobre amor e todos esses sentimentalismos é complicado, pelo menos para mim.
Eu fico me perguntando como que Renato Russo, Arnaldo Jabour e todos esses escritores inspiradérrimos conseguem traduzir exatamente o que sentem. Será mesmo mesmo que conseguem? Bom, mas não é para levantar essa questão que estou escrevendo.
Se eu não consigo nem definir meus sentimentos, falar deles trona-se muito mais complicado. Mas uma coisa eu descobri: muito mais complicado do que escrever sobre sentimentos, é escrever sem sentí-los.
 Se ele está dentro de você, uma hora ou outra você acaba encontrando uma maneira de tecer algumas linhas sobre, mesmo que complexamente. Mas se você não sente e nem nunca sentiu, aí as coisas complicam. Como falar de algo que não se sabe como é? Como definir? Através de conceitos que outros fizeram?
Cada um é diferente, e sente diferente. Definir sentimento me dá a impressão de limitá-lo, enquanto, na verdade, teria de ser ilimitado para ser sentindo por inteiro. Ou será que estou errada?

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A vida começa aos 30

Por Mônica Salmazo

Parece que hoje tudo é motivo para falar em dinheiro ou tempo. Dois fatores essenciais para quem deseja ter uma vida sossegada nos dias atuais.
Mas será que tudo gira em torno disso? Tudo gira em ganhar um dinheirinho e investir? Para todos os lados as pessoas falam em investir, até mesmo os jovens. Cada vez mais aumenta o número de jovens preocupados com o futuro, que juntam um dinheirinho e começam a investir.
A educação que se adquire dentro de casa é fundamental quando o tema surge, geralmente adolescentes preocupados com o futuro tem pais que falam sobre o assunto em casa. Os maiores investidores tem os pais como exemplo, e ver jovens discutindo sobre ações já não é coisa de outro mundo.
O mercado é tão extenso que quando decide começar, a maioria das pessoas se perdem com tantas opções. Investir em empresas privadas ou em títulos públicos? Taxas e mais taxas e mais taxas e cada vez mais taxas. Parece ser resistente o número de informações que insistem apenas em avançar. Livros sobre como cuidar do dinheiro, como investir dinheiro, como conseguir dinheiro e investir no tempo, organizar tempo, planejar seu tempo para ganhar mais dinheiro.
Investir em títulos do Banco Itaú ou Banif, do Socopa ou Spinelli, investir talvez nos Prefixados (LTN-NTN-F) ou indexados ao IPCA (NTN-B), atrelados à taxa Selic (LFT) ou indexados ao IGP-M (NTN-C). As informações são tantas que confunde a cabeça do novo investidor*.
Pensar demais no tempo é outra preocupação. O dia parece durar 36 horas e questões urgentes aparecem o dia inteiro. Falta de planejamento, para isso podemos ler o que fazer com o tempo, o tempo é precioso, ganhe mais administrando seu tempo, o tempo é seu melhor amigo, o tempo, o tempo, o tempo é tudo o que temos e precisamos sempre planejá-lo para que talvez ele passe a ser as velhas 24 horas da época dos nossos avós.
Já acabou o tempo que vivíamos de amor, que as aventuras eram permitidas, que o normal era casar e ter filhos jovem. A vida só começa depois dos 30, quando já gastamos a nossa juventude administrando o futuro, nos certificando que ao chegar nessa idade vamos ter uma vida tranquila, com conforto, com tempo, com dinheiro.
É sufocante! Muitas vezes me pego pensando no que será de mim se chegar aos 30 e não tiver tudo isso.
O mundo está criando pessoas estranhas. O mundo pede todas as habilidades imagináveis para preencher um cargo muitas vezes simples, depois de exigir que cada pessoa se especializasse em algo (especialista em planejamento financeiro de empresas médias do ramo agroindustrial, especialista em história do Brasil período colonial, especialista em limpar o baldinho de lixo do banheiro, especialista em servir batatas fritas palito, especialista em arrumar o broche do terno de marca específica), após toda essas exigências agora o assunto são os especialistas "gerais".
Agora temos que ser GERAIS, temos que saber colocar o broche e servir batatas, temos que saber história e sobre investimentos, saber de física avançada, de economia doméstica, saber escrever teses acadêmicas e reciclar o material em casa. Responder a todos sobre tudo.
Isso sufoca, sufoca quem está no mercado, quem está fora dele, quem quer entrar e quem quer sair, sufoca a família, os colegas, sufoca a sociedade. Daqui alguns anos as crianças vão nascer com seu planejamento de marketing pessoal construído e falando 10 idiomas.
Não tem como reverter este processo, a globalização tomou conta. Eu, como jovem, esperava ao menos que me ensinassem isso, me ensinassem a fazer meus planos, me ensinassem na escola que eu devo saber e o que eu devo fazer, por que não me disseram que eu deveria saber de tudo senão eu vou ser pobre?
Educação básica é coisa do passado, a educação tem que ser ultra mega hiper avançada e, dessa forma, TALVEZ, você consiga um emprego, TALVEZ consiga tempo, TALVEZ consiga dinheiro, TALVEZ consiga uma família, e TALVEZ consiga começar a viver aos 30.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Banho

Por Maria Gabriela Brito

Trabalhou o dia inteiro capinando jardins de casas chiques, não cobrava caro e fazia o serviço com amor e muito cuidado. Talvez tenha limpado uns 10 quintais naquele dia, e ganhado alguns bons 60 reais que pagariam a conta de luz do mês passado, a deste mês e talvez ainda desse para comprar comida.
Estava sujo e cansado quando terminou a última casa. Subiu em sua bicicleta e pedalou por longos e intermináveis sete quilômetros, distância equivalente entre os bairros nobres da cidade e a semifavela onde morava. Sua vida era medíocre, mas ele nunca reclamou, era muito simples pra isso.
Suas costas doíam, mas a vida o calejou o suficiente para não dar atenção a qualquer tipo de dor. As mãos pareciam estar mais grossas, típicas de um homem que trabalhou desde menino. Tudo para sustentar sua esposa e os quatro filhos pequenos.
Finalmente estava perto de casa, a barriga roncava de fome. Pensou se a mulher havia feito aquela sopa de jiló e moranga com muita água para ter o suficiente para a família de seis pessoas. Pensar no cardápio da janta deu água na boca.
Chegou suado na porta, já estava anoitecendo. Imaginou aquele banho relaxante que ia tomar. Banho relaxante que nada, pobre não tem banho relaxante, era só pra limpar mesmo. Tinha que racionar, o bairro andava sem água nos últimos dias.
Abriu a porta e viu a mulher na cozinha. A barriga doeu de fome, mas queria mesmo era aquele banho gelado, com os poucos fios de água desordenados que caiam do chuveiro. Foi direto para o banheiro, parou já sem roupa, ansioso, em frente à torneira. Rodou até as últimas e nem uma gota de água caiu.
Ficou chateado por um momento, mas foi dormir conformado e sujo mesmo, sem comer sopa. No outro dia acordou do jeito que foi dormir, sujo. Seu café da manhã foi a sopa aguada e fria da janta. Montou em sua bicicleta e foi dar continuidade à sua subvida, torcendo apenas para que quando voltasse naquela noite, tivesse água para tomar banho.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Acabou a Luz

Por Maria Gabriela Brito


Eles estavam casados há 30 anos e tinham apenas um filho adulto que havia construído sua vida e família em uma cidade vizinha. A conversa entre os dois há muito tempo era curta e objetiva. “Você já foi ao supermercado? Acabou meu creme de barbear”, ou ainda, “A encanação do banheiro não está boa, depois chama um encanador”.
Não se ouvia mais os “eu te amo” do começo do relacionamento quando os dois tinham apenas 18 anos. Tornaram-se completos estranhos que dividiam a mesma casa, a mesma história e por incrível que pareça, a mesma cama. A única coisa que ainda tinham em comum era o filho.
Cada um tinha rotinas distintas, e há muito tempo o programa de um já não incluía o outro. A noite ela lia um livro na cama e ele assistia ao futebol na sala, as visitas ao filho eram feitas separadas, nenhum dos dois sabia porquê, mas acabou que um dia ficou assim e não mudou mais.
Todas as noites eram a mesma coisa, os dois moravam juntos, mas cada um sentia uma solidão imensa dentro de si. Em uma dessas noites comuns e rotineiras a casa ficou sem energia. Ela morria de medo de escuro, tanto é que a única atitude carinhosa que ainda existia entre eles, era que ele apagava a luz apenas depois que ela dormisse.
Na hora do ocorrido, ela saiu do quarto correndo e gritando pelo marido, ele foi ao encontro dela para acalmá-la. Os dois saíram de casa e perceberam que a luz havia sido cortada no bairro inteiro. Voltaram juntos para dentro, procuraram uma vela e sentaram na sala em um silêncio ensurdecedor.
Depois de 15 minutos que pareciam ter durado horas, ela finalmente puxou assunto.

-Que dia você vai visitar o Júnior?

-Não sei, por quê?

-Há... sei lá, tava pensando da gente ir junto.

Ele ficou bem espantado e surpreso com a proposta da esposa, mas não viu motivos para recusar. O silêncio voltou por mais alguns segundos, quando foi quebrado mais uma vez por ela.

-O que foi que aconteceu com a gente?

Ele sinceramente não soube responder. Os dois ficaram parados, pensando e olhando para o nada, pensando no amor intenso, no amor romântico, depois no amor sólido, o respeitoso, depois no amor conformado e agora? Qual era o amor deles? A verdade é que nenhum dos dois sabia se existia amor, o que os dois haviam construído era muito maior que isso, mas será que ainda significava alguma coisa?
Depois de 30 anos juntos, enfrentaram todas as adversidades e alegrias que a vida podia oferecer. Eles se criaram juntos, aprenderam a viver, juntos. Pela primeira vez em muitos anos os dois pararam para pensar nos dois, e a conclusão que chegaram? Ainda dava tempo de cada um correr atrás de sua própria vida.
A luz da casa voltou alguns minutos depois, cada um voltou para sua rotina noturna, no dia seguinte ele saiu de casa e procurou um advogado. Depois do divórcio a luz também voltou para a vida deles.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Lábios vermelhos

http://www.culturalivre.net/wp-content/uploads/2009/01/boca-vermelha.jpgPor Mônica Salmazo

Com grandes olhos negros e um cabelo cor-de-fogo ela seguia em direção ao horizonte. Em sua cabeça os fatos ficavam se repetindo sem parar, sem lhe dar ao menos alguns minutos para descansar sua mente e seu coração ferido.
Não entendia como tudo aquilo acontecera, não era possível que algo assim pudesse existir, mas finalmente decidiu ir embora.

Era fim de outono e o vento frio passeava pelas ruas, prestes a colorir tudo de branco com a chegada do inverno, o único som que se ouvia era o sapato marrom velho que apertava os pés de Juliana.
Entregar jornais nunca fora o sonho dela, mas sabia que para chegar onde queria era necessário algum sacrifício, se calava e continuava seus afazeres. Ela escutou um latido e correu para a rua, assustada, ela não havia visto que a casa abandonada tinha novos moradores. Um cheio estranho invadiu seus pulmões e uma boca desconhecida estava lhe beijando os lábios, a sensação era de que tudo estava tudo fora do normal e que o mundo havia enlouquecido, ou ela tinha enlouquecido.
Ao abrir os olhos viu um belo par de olhos verdes água e um cabelo preto, liso, comprido que ajudavam a contornar o rosto delicado do garoto que estava a sua frente. Seus lábios eram grossos e vermelhos e quentes, muito quentes.
Ele pegou em sua mão e levou-a até a casa e a fez sentar nas escadas de entrada, era estranho como nenhuma palavra havia sido dita ainda. Ela tentou falar algo, mas imediatamente os dedos do garoto calou-a, pedindo simbólicamente silêncio.
Após alguns minutos ele se levantou e entrou em casa, ela foi embora sem saber o que fazer ou pensar.
Durante 5 meses ela passava todos os dias na porta da casa pontualmente às 10 horas da manhã e todos os dias o garoto saía da casa e lhe dava um beijo, sentavam-se durante alguns minutos na escada sem dizer nada e ela ia embora.
A paixão aumentava e ela não sabia quem ele era, mas estava perdida de amor.
Mudara tudo, seu jeito de andar, de vestir, de pensar, de agir, havia mudado até mesmo o seu jeito de falar pensando no dia em que conversaria com ele.
O verão havia chegado e as noites se tornaram insuportavelmente quentes, e ela sonhou. Sonhou que estava tudo escuro e apenas uma luz no centro, o garoto aparecia, seus lábios estavam tão vermelhos que pareciam arder, ela tentava o alcançar mas não conseguia, tentava falar, gritar, berrar para que ele a escutasse. Acordou toda suada às 11 horas. Levantou desesperada e saiu correndo para a casa dele. Bateu três vezes na porta mas ninguém atendia.
Tentou dar a volta e entrar mas não adiantou, tudo estava bloqueado. Voltou para casa e esperou até o outro dia. Nada no dia seguinte, e também no outro, e no outro, e no outro e foi assim durante a semana inteira. Ela esperou o outono, o inverno, a primavera e quando o verão voltou novamente ela já não falava, não comia direito e não levantava mais da cama.
Recebeu uma foto estranha, com uma boca vermelha e um dedo na frente, fazendo um sinal de silêncio. Seu coração acelerou e ela imediatamente procurou saber se era ele, foi correndo até a casa mas não havia nada, procurou por todos os lados informações de onde viera a foto. Passou um mês procurando e finalmente descobrira que a foto vinha da França.
Arrumou suas coisas e jurou ir embora, em busca de seu amor, e não iria olhar para trás, não importasse o que acontecesse. Sofrera demais e estava na hora de correr em busca de seus sonhos ao invés de ficar entregando jornais para o resto da vida.

Ela saiu de casa e começou a andar em direção ao horizonte. Só precisava dizer à ele: Eu te amo!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Saudade

Por Maria Gabriela Brito

Já namoravam há quatro anos. Por ela largou o cigarro, a bebida, as drogas, o mundo da farra e bagunça. Agora andava de cabelo bem penteado. Deixou o all star e a calça larga de lado. Usava sapatos e camiseta pólo. Ele amava muito ela, e por ela mudou. Para o mundo, ele havia mudado para melhor, para ele... Bom, ele nem se lembrava mais dele.
Um dia ela chegou e disse:
- Eu te amo, mas não como antes, sinto que minha missão com você está cumprida. Você é uma pessoa melhor, com a cabeça no lugar. Desculpe, mas não posso mais, quero terminar.
Seu mundo desmoronou naquele instante. Anos esforçando-se para ser alguém melhor, alguém bom o suficiente para ela.
Uma semana depois não conseguiu segurar, foi chorar suas mágoas no boteco da esquina. Jogou sinuca com amigos que não via há algum tempo, comprou um maço de cigarro, fumou sozinho em 42 minutos. Bebeu 10 garrafas de cerveja, quatro doses de pinga e uma dose de tequila.
Dormiu no bar e só acordou no outro dia em casa, não lembrava como havia chegado até lá, mas se deu conta de que estava com uma puta ressaca. Levantou cambaleando, tomou um Dorflex e três Engov. Preparou um café bem forte e bebeu sem adoçar. Sentou na sala de televisão e debruçou a cabeça nas mãos.
Percebeu que estava com saudades. Não dela. Tratou de colocar um sorriso no rosto e seu all star no pé, saiu dali direto para o boteco da esquina. Foi matar a saudade dele mesmo.



Imagem: http://renatoprospero.blogspot.com

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O cego

Por Maria Gabriela Brito

Naquele dia ele saiu nervoso de casa. O olhar estava pesado e abatido. A noite mal dormida refletiu no rosto que exibia uma expressão cansada. Deixou o carro na garagem e decidiu ir de ônibus para o trabalho.

Vestia um terno preto e andava sob o sol escaldante. Por um momento se arrependera de ter deixado o carro com ar condicionado em casa. Sentou-se no ponto no aguardo do coletivo. Naquela hora lembrou da esposa que ficara em casa preparando o café que ele recusara. Ele nem se despediu dela.


Bateu nele uma tristeza imensa. O casamento já não era um mar de rosas. A luta para ter um bebê transformara o relacionamento em um fardo. Nenhum dos dois conseguia entender o que os fazia continuar com aquilo. Ela já não o via como antes e ele nem mesmo a via mais. Os diálogos eram objetivos e a conversa curta.

Pensar no casamento fez o homem ficar chateado. Ele queria entender o que fizera de errado e se fora ele o culpado. Perdido em seus pensamentos não percebeu que o ônibus passara. Quando se deu conta, já era tarde, o veículo dobrava a esquina. Deu um suspiro profundo e decidiu ir a pé mesmo, afinal eram apenas meia hora de caminhada e ele precisava se exercitar.

Há anos havia largado a academia, além disso, começara a fumar. E foi o que ele fez naquele momento. Ficou em pé e procurou na maleta de couro marrom o maço. Acendeu um cigarro e pôs-se a caminhar. Quando foi firmar o passo, uma mão veio lhe apertar o braço.

Pronto para descontar toda a raiva acumulada naquele ser ele percebeu que se tratava de um jovem cego. “Senhor, me ajuda a atravessar essa rua? Movimentada, né?” falou o rapaz que não devia ter mais de 17 anos. Sentindo-se um pouco embaraçado por quase desaguar um mar de problemas no moço, ele se prontificou a ajudá-lo.

E lá foram os dois lentamente pela movimentada avenida. O rapaz cego não falava nada e pensava sabe-se lá no quê. O empresário antes nervoso ia ficando mais calmo a cada passo. Observava o rapaz que exibia um curioso sorriso estilo Mona Lisa, daqueles indecifráveis. Ele parecia verdadeiramente feliz.

A situação o deixava cada vez mais envergonhado. O jovem caminhou tranqüilo e sorridente até o outro lado da rua, enquanto ele reclamou a manhã toda da vida que levava. Finalmente os dois chegaram à calçada. Ele estava mais leve. O moço agradeceu e se despediu.

Ele ficou para trás apenas observando o cego seguir adiante, abrindo espaço por entre toda aquela gente com sua bengala. Depois daquela situação uma maré de positivismo se abateu sobre ele. Olhou para o relógio e viu que ainda dava tempo. Tempo de chegar ao trabalho, tempo de se despedir da esposa e quem sabe, tempo de salvar seu casamento.

O jovem cego de alguma forma o afetou, fazendo-o ver o que estava perdendo. Sua vida passava diante de seus olhos e ele mantinha-se cego a tudo que acontecia ao seu redor. Ele correu, correu o máximo que pôde. Brecou em frente uma floricultura, comprou uma rosa vermelha e pôs-se a correr de novo.

Chegou em casa transpirando, parou em frente a porta, ajeitou a gravata e entrou. A mulher estava no quarto arrumando a cama. Ele entrou e beijou-a intensamente, em seguida entregou a ela a rosa. A esposa emocionada chorou. Naquela manhã ele viu a esposa como nunca vira antes.

Algumas semanas depois veio a confirmação da gravidez. Nove meses mais tarde o mundo dava boas vindas a Vitória. E o executivo nunca mais viu a vida da mesma maneira.