Por Maria Gabriela Brito
Ela voltou para casa chorando de tanta raiva. A mãe estava revoltada. “Como um menino pode grudar chiclete no cabelo da minha filha?”. Ela tentava acalmar a menina que não parava de chorar um minuto. A situação piorou quando ficou sabendo que ia ter que cortar os cabelos longos para sua idade.
- Chanel não mãeeeeee! Não queroooooo, não querooooo! Eu não vouuu! – esgoelou a menina.
- Mas você prefere ficar com chiclete grudado no cabelo?
- Prefiro!
A mãe acabou convencendo-a de que a melhor solução era cortar o cabelo. O corte caiu muito bem para o rostinho infantil, e combinava mais com seus apenas oito anos. Ela também gostou. Até que estava se divertindo com toda aquela história de ser vítima, mas não queria que ninguém soubesse.
Na verdade ela tinha um plano. Aquele menino não ia ficar impune nunca! Pensou numa armação mirabolante para infernizar a vida dele e colocou em prática no outro dia.
- Professora! O Igor cortou o meu cabelo!
E desabava em lágrimas.
A professora pegava Igor e o levava direto para a diretoria toda vez que ela inventava alguma coisa e colocava a culpa nele. Foi assim até eles completarem 14 anos. Foi então que Igor precisou mudar de escola. Os dois nunca mais se viram, ela ficou satisfeita porque finalmente havia se livrado dele e completado sua vingança.
Anos se passaram. Ela entrou para a faculdade e a última coisa que passava pela sua cabeça era o Igor. O coitadinho sofreu na mão dela. E ela fez isso com todos os outros meninos, rapazes e homens que algum dia fizeram alguma coisa que ela não havia gostado. Ela ficou desse jeito por causa dele. Estava sempre na defensiva.
Completou a faculdade, tinha um trabalho estável e nenhum namorado. Nada daquilo fazia diferença para ela. Alguns casinhos básicos de vez em quando, nada demais. Até que conheceu ele, lindo, alto, moreno, sorriso encantador. Ele a fez esquecer toda a raiva que tinha acumulada do sexo oposto desde seus oito anos. Era maduro, tinha um bom emprego, era perfeito.
Tudo que ela não havia procurado a vida inteira. Ela pensava de onde ele havia saído. Mas ele sabia muito bem quem era ela. Aos 14 anos foi expulso da escola, nenhuma outra particular quis aceitá-lo. Começou em uma estadual, mas não foi muito bem vindo. Não fez nenhum amigo. Ele teve que mudar de cidade, começou uma nova vida, e depois decidiu voltar.
Agora eles estavam juntos, e ela encantada por ele. Era sua chance de vingança. Almoçavam juntos quase todos os dias, e ela ficava maravilhada com a conversa dele. Era bom demais para ser verdade. Neste dia em especial, em meio aos assuntos animados, ele pediu licença para ir ao banheiro. Ao sair deu-lhe um beijo carinhoso e acariciou o longo e liso cabelo dela.
Não voltou mais. Ela começou a estranhar a demora. Levantou-se e foi ao banheiro também. Quando se olhou no espelho reparou em algo grudento e colorido espalhado pelo cabelo. Era chiclete. Foi ai que ela se lembrou dele. “Maldito!”, pensou. Saiu dali direto para o cabeleireiro, onde fez um chanel igual aquele de quando tinha oito anos. Prometeu que encontraria ele e pediria revanche. Ele por outro lado foi embora, achando que finalmente tinha se vingado.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Quem gosta?
Começou a corrida eleitoral! São centenas de candidatos em busca de votos, e para isso utilizam todas as artimanhas e ferramentas possíveis e impossíveis, bombardeando os eleitores com propagandas e promessas na maior parte das vezes ilusórias. E o pior, é sempre o mesmo discurso, o que deixa a população cansada e desestimulada a acompanhar as propagandas eleitorais nas rádios e tv's. Quem se prontifica a ouvir todos os dias a mesma ladainha?
Vez por outra, durante todo o período eleitoral, os programas ganham uma informação ou quadro novo, para não dizer que estão fazendo os eleitores de bobo, assistindo durante quase 40 dias a mesma conversa fiada. Quem gosta?Os santinhos são sempre iguais, nada inovador aparece no visual, muito menos no conteúdo. Utilizam outdoors, faixas e cavaletes, causando total poluição visual pelas ruas das cidades. E aí entra outra questão revoltante. Se qualquer cidadão quiser utilizar espaço público para divulgar o seu negócio ele é impedido e multado, agora para políticos quer querem somente se eleger, e depois nem se preocupam com seus deveres perante a população o espaço é liberado, com respaldo de lei federal. Quanta injustiça! Já começa daí a desigualdade e hipocrisia que toma conta do nosso país.
Até há algum tempo atrás não tinha parado para refletir sobre essas questões eleitorais, só me sentia enfadada dessas propagandas e me dava (e ainda dá) arrepios de repugnânicia só de pensar nos massantes horários eleitorias. Mas em uma mesa de bar sempre surge algo construtivo, promissor ou no mínimo reflexivo. Pessoas desconhecidas há até 30 minutos atrás viram verdadeiros amigos de infância, as piadas tem seu momento especial na mesa, e assuntos polêmicos vem a tona, e política é quase semrpe um deles.
Papo vai, papo vem, quando estávamos no calor da conversa sobre em quem votar surge a questão do voto facultativo. Taí! Talvez seja a solução para deixarmos de eleger esses políticos com alto poder e técnica persuasiva, onde os atingidos são principalmente os menos politizados (a maioria da população), que por fim acabam elegendo os políticos bom de papo e ruim de fato.
Seria o caso de se pensar nessa inovação, uma reformulação das leis eleitorais. O voto estaria nas mãos de quem entende e quer participar da política brasileira, quem não se interessa não precisaria votar nulo, em branco, ou no candidato que está vencendo, só por votar, sem consciência, por obrigação. E para a maioria da popolação não ficar alienada, deveria existir um investimento na educação política da população, politizando a massa, fazendo assim com que ela tenha consciência no ato de votar.
Mas enquanto tudo isso não acontece, vou ligar a televisão na hora do meu descanso e apreciar o espetáculo gratuito eleitoral, que funciona como musiquinha de ninar para meus ouvidos!
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Todo mundo deve satisfação a alguém
Por Maria Gabriela Brito
Olhou seu reflexo no espelho admirado. Deu uma ajeitada na gravata e escovou os cabelos com gel perfeitamente alinhados. Saiu do banheiro e pegou sua maleta na cama de casal onde sua mulher ainda dormia. A suíte chiquérrima ficava no segundo andar da mansão localizada no Jardim Europa, bairro com o metro quadrado mais caro de São Paulo.
Desceu as escadas, virou à direita, atravessou a lareira, a sala de jantar até a cozinha. Abriu a geladeira de aço inox e pegou um Ades de maçã, colocou em um copo de cristal, bebeu uns goles e deixou o resto na pia impecavelmente limpa pela empregada. Voltou pelo mesmo caminho e seguiu até a sala de estar chegando ao hall de entrada.
Abriu a gigante porta de madeira entalhada e saiu para a garagem. Entrou no fusion preto, que era o carro para ir ao trabalho, que estava bem ao lado do porshe também preto, e o PT Cruiser verde-musgo da esposa. Entrou no carro, ligou o ar condicionado e o som programado para sua rádio favorita de música orquestrada.
Seguiu para mais um dia de trabalho. Chegou em um prédio de 32 andares espelhado de azul. Guardou o carro no estacionamento, subiu por um elevador elegante até o 31º andar onde ficava seu escritório. Ali funcionava uma multinacional da qual ele era presidente.
Entrou, deu bom dia a sua secretária e foi para sua sala toda de vidro com uma visão panorâmica da cidade. Recebeu telefones o dia todo. Deu muitas ordens à secretária, ao diretor executivo, ao advogado e ao vice- presidente, um velho amigo. Passou o dia mandando.
Mandou a faxineira varrer melhor, mandou a estagiária trazer mais café. Mandou a secretária fazer inúmeros telefonemas. Mandou, mandou e mandou. Era o que ele fazia de melhor. Quando criança mandava na mãe, no pai, e na irmã mais velha. Ele não se via em outra posição senão a de chefe, onde ele só mandava e nunca era mandado.
Passou aquele dia como qualquer outro, mandando em tudo e em todos. Depois de encerrado o período de trabalho ele continuou por lá. Sempre era o último a sair. Fazia o possível para chegar em casa tarde. Já eram perto das 21h quando o celular começou a tocar.
Ele fez questão de não atender, mas sabia que precisava voltar. Recolheu seus papéis, guardou na pasta de couro e foi embora. Chegou em casa, deu um suspiro antes de abrir a porta e entrou.
-Onde você estava? – perguntou a mulher nervosa.
-Trabalhando. – respondeu seco.
-Pode começar a chegar mais cedo! Você vai chegar mais cedo! - Berrou ela descontrolada.
-Ok. Você que manda. – Respondeu carrancudo, subiu as escadas e foi dormir. Amanhã tinha muita gente para ele descontar.
Olhou seu reflexo no espelho admirado. Deu uma ajeitada na gravata e escovou os cabelos com gel perfeitamente alinhados. Saiu do banheiro e pegou sua maleta na cama de casal onde sua mulher ainda dormia. A suíte chiquérrima ficava no segundo andar da mansão localizada no Jardim Europa, bairro com o metro quadrado mais caro de São Paulo.
Desceu as escadas, virou à direita, atravessou a lareira, a sala de jantar até a cozinha. Abriu a geladeira de aço inox e pegou um Ades de maçã, colocou em um copo de cristal, bebeu uns goles e deixou o resto na pia impecavelmente limpa pela empregada. Voltou pelo mesmo caminho e seguiu até a sala de estar chegando ao hall de entrada.
Abriu a gigante porta de madeira entalhada e saiu para a garagem. Entrou no fusion preto, que era o carro para ir ao trabalho, que estava bem ao lado do porshe também preto, e o PT Cruiser verde-musgo da esposa. Entrou no carro, ligou o ar condicionado e o som programado para sua rádio favorita de música orquestrada.
Seguiu para mais um dia de trabalho. Chegou em um prédio de 32 andares espelhado de azul. Guardou o carro no estacionamento, subiu por um elevador elegante até o 31º andar onde ficava seu escritório. Ali funcionava uma multinacional da qual ele era presidente.
Entrou, deu bom dia a sua secretária e foi para sua sala toda de vidro com uma visão panorâmica da cidade. Recebeu telefones o dia todo. Deu muitas ordens à secretária, ao diretor executivo, ao advogado e ao vice- presidente, um velho amigo. Passou o dia mandando.
Mandou a faxineira varrer melhor, mandou a estagiária trazer mais café. Mandou a secretária fazer inúmeros telefonemas. Mandou, mandou e mandou. Era o que ele fazia de melhor. Quando criança mandava na mãe, no pai, e na irmã mais velha. Ele não se via em outra posição senão a de chefe, onde ele só mandava e nunca era mandado.
Passou aquele dia como qualquer outro, mandando em tudo e em todos. Depois de encerrado o período de trabalho ele continuou por lá. Sempre era o último a sair. Fazia o possível para chegar em casa tarde. Já eram perto das 21h quando o celular começou a tocar.
Ele fez questão de não atender, mas sabia que precisava voltar. Recolheu seus papéis, guardou na pasta de couro e foi embora. Chegou em casa, deu um suspiro antes de abrir a porta e entrou.
-Onde você estava? – perguntou a mulher nervosa.
-Trabalhando. – respondeu seco.
-Pode começar a chegar mais cedo! Você vai chegar mais cedo! - Berrou ela descontrolada.
-Ok. Você que manda. – Respondeu carrancudo, subiu as escadas e foi dormir. Amanhã tinha muita gente para ele descontar.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Imprensa irritante
Há mais de um mês não se vê assunto em maior evidência do que a morte de Eliza Samudio, ex-amante de Bruno Fernandes das Dores de Souza, ex-goleiro do Flamengo. Ok, tenho de concordar que foi um crime bárbaro, se os depoimentos colhidos forem totalmente verídicos. Mas existem milhares de crimes absurdamente maldosos acontecendo por aí, todos os dias, e nem por isso eles viram manchetes de jornais durante semanas.
Eu sei que o caso do Bruno se torna mais interessante pelo fato do criminoso ser uma pessoa pública. Mas isso não justifica a imprensa dar tanta relevância isso. Focar em um crime enquanto, no mês passado, dezenas de pessoas morreram, ficaram sem casa e família por causa de um desastre da natureza, deixar de lado as eleições que se aproximam, onde os jornalistas deveriam atuar de maneira informativa, para auxiliar a população a se interar sobre os candidatos. O Código Florestal está sendo modificando, possibilitando maior destruição de nossas florestas, retirando multas e amenizando as penas de quem um dia já cometeu algum crime ambiental. Quantos brasileiro sabem disso?
A imprensa está realmente interessada em trabalhar para o bem da sociedade? O que eu vejo são meios de comunicação obssecados por audiência, e, para estar em primeiro lugar, todos se utilizam de qualquer assunto polêmico para a população, sem se preocupar com o real dever do jornalismo. Sem se atentar em ajudar a sociedade a se tornar cada vez melhor.
Eu estou de saco cheio de ouvi falar do caso Bruno, assim como fiquei enfurecida na época do caso Ronaldo e seus travestis, do garoto João Hélio. E no final, alguém aí sabe me dizer como todas essas histórias acabaram? É tanto alvoroço e especulação, para no fim, ficarmos sem saber o desfecho.
Eu quero uma imprensa inteligente e comprometida com a sociedade. Aqui fica também o meu protesto, contra essa imprensa manipuladora e leviana em relação aos interesses da sociedade. Por isso optei por ser jornalista. O que se precisa é de gente honesta, comprometida e qualificada, para garantir o progresso.
sábado, 10 de julho de 2010
Blog da Quinzena
Queridos Delirantes, esta quinzena escolhemos o site Corporativismo Feminino.
Mais do que interessante, o espaço criado foi criado por 7 mulheres, e é uma espécie de mesa redonda das mulheres.
Mostra de tudo um pouco, realmente de TUDO um pouco. Podem apostar que essa dica é IMPERDIVEL!!!
Mais do que interessante, o espaço criado foi criado por 7 mulheres, e é uma espécie de mesa redonda das mulheres.
Mostra de tudo um pouco, realmente de TUDO um pouco. Podem apostar que essa dica é IMPERDIVEL!!!
domingo, 4 de julho de 2010
Certeza - Uma crônica sobre mim mesma
Por Maria Gabriela Brito
Quando criança nunca havia pensado no futuro. Queria saber apenas do agora. Era fechada com desconhecidos e escancarada com pessoas amadas. Gostava de falar, expor sua opinião, mesmo que na infância, não fosse muito ouvida. Com o passar dos anos a paixão por se comunicar com as pessoas só crescia.
Já conseguia defender seu ponto de vista, e mais do que isso, gostava de escutar os outros e ajudar esses a se ouvirem também. Inspirava-se no pai, ela o colocava em um pedestal. Engenheiro Civil, ex-fazendeiro, apaixonado por números e letras, a incentivava culturalmente, com leituras, escritas e estudos.
Ainda nova, escrevia poemas de amor, da vida, da dor. Sonhava em publicar um livro. Na família eram dois primos jornalistas, e o tio escritor e compositor, Cacaso. Quando descobriu os textos dele, encantou-se ainda mais pela descrição do cotidiano e do comportamento das pessoas.
Na escola montou um jornalzinho apenas para seu círculo social, nesse, ela escrevia seus poemas, e contava casos da sua própria roda. As amigas vidravam ao verem seus nomes citados por ela. O pequeno projeto não durou muito tempo, com apenas 13 anos, ela tinha várias outras coisas a se preocupar, menos com o futuro, que ainda não passava pela sua cabeça.
Nos encontros de família e com a falta de assunto, sempre surgia a pergunta, “Gabriela, e ai? Já sabe o que vai ser quando crescer?”. Aquilo a matava por dentro. “NÃO, eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe” pensava a menina. Para ser simpática, acabava respondendo o que todos queriam ouvir: “Vou ser médica”, algumas vezes, “Vou ser dentista”, outras vezes, “Vou ser advogada”.
A verdade é que ela não sabia o que ia ser, e naquela altura do campeonato, aquilo começava a perturbá-la. No colegial, tentou resgatar todos os seus gostos. Descobriu que era apaixonada por moda. Começou a desenhar roupas, e percebeu que também tinha certo dom para a coisa, mesmo sem nenhum curso, tinha os traços firmes e criava modelos que ela jurava que confeccionaria um dia.
No último ano da escola era hora de escolher. A menina começava a se desencantar pela moda, não que aquilo não fosse seu sonho, mas será que ela seria alguém naquele meio? Relações internacionais também era uma opção. Gostava de inglês, francês. Apaixonada por cultura de qualquer lugar, começava a achar que aquele seria seu destino. Conhecer novas línguas e lidar com pessoas diferentes dela.
Ao longo do ano, ela teve certeza de várias coisas. Começou com a certeza de cursar relações internacionais. Desistiu. Teria que sair de sua cidade, e ela não queria deixar o pai para trás. Eram apenas ela, ele e a irmã mais nova. Iniciou uma nova certeza, a de cursar administração. Desistiu. Queria trabalhar com pessoas, mas ainda não era aquela sua paixão.
Motivada por seu passado rural pensou em agronomia. Desistiu. O pai tinha passado péssimas experiências na área, e ela não queria aquilo. A próxima certeza foi o curso de direito. Desistiu sem motivo aparente. Aquilo ainda não a agradava. O curso de moda já estava fora de cogitação, também teria que sair da cidade para esse. Teve um insight. Psicologia. Sempre gostou de ouvir e ajudar as pessoas com seus problemas. Agora era certeza.
No dia da inscrição, marcou o curso, sem toda aquela certeza de antes, mas marcou. Todo dia ela examinava as profissões disponíveis na faculdade. Nada. Começava a sentir-se mal. “Não nasci para fazer nada, nada se encaixa no meu perfil” avaliava. No último segundo, do último dia para uma provável alteração no curso escolhido, ela tinha apenas uma certeza, não era psicologia.
Olhou todas as opções de novo, leu as descrições, e não sabia o que fazer. Foi quando um nome ressaltou sobre os outros. Um nome que ela havia visto várias outras vezes e ignorado. Como não havia pensado nisso ainda? “Prontos ou não, lá vou eu”. Foi fazer a prova de vestibular feliz, acertou todas as perguntas de português, e fez uma redação que até ela se surpreendeu. Aprovada, deu início no curso.
Hoje, Gabriela está no último período de jornalismo, e apesar da vida tê-la levado a novos desafios e oportunidades, pretende escrever um livro com seus textos e fazer sua pós-graduação em moda, já que sua paixão pelo assunto ainda está intacta. E finalmente tem certeza que está no caminho certo.
Quando criança nunca havia pensado no futuro. Queria saber apenas do agora. Era fechada com desconhecidos e escancarada com pessoas amadas. Gostava de falar, expor sua opinião, mesmo que na infância, não fosse muito ouvida. Com o passar dos anos a paixão por se comunicar com as pessoas só crescia.
Já conseguia defender seu ponto de vista, e mais do que isso, gostava de escutar os outros e ajudar esses a se ouvirem também. Inspirava-se no pai, ela o colocava em um pedestal. Engenheiro Civil, ex-fazendeiro, apaixonado por números e letras, a incentivava culturalmente, com leituras, escritas e estudos.
Ainda nova, escrevia poemas de amor, da vida, da dor. Sonhava em publicar um livro. Na família eram dois primos jornalistas, e o tio escritor e compositor, Cacaso. Quando descobriu os textos dele, encantou-se ainda mais pela descrição do cotidiano e do comportamento das pessoas.
Na escola montou um jornalzinho apenas para seu círculo social, nesse, ela escrevia seus poemas, e contava casos da sua própria roda. As amigas vidravam ao verem seus nomes citados por ela. O pequeno projeto não durou muito tempo, com apenas 13 anos, ela tinha várias outras coisas a se preocupar, menos com o futuro, que ainda não passava pela sua cabeça.
Nos encontros de família e com a falta de assunto, sempre surgia a pergunta, “Gabriela, e ai? Já sabe o que vai ser quando crescer?”. Aquilo a matava por dentro. “NÃO, eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe” pensava a menina. Para ser simpática, acabava respondendo o que todos queriam ouvir: “Vou ser médica”, algumas vezes, “Vou ser dentista”, outras vezes, “Vou ser advogada”.
A verdade é que ela não sabia o que ia ser, e naquela altura do campeonato, aquilo começava a perturbá-la. No colegial, tentou resgatar todos os seus gostos. Descobriu que era apaixonada por moda. Começou a desenhar roupas, e percebeu que também tinha certo dom para a coisa, mesmo sem nenhum curso, tinha os traços firmes e criava modelos que ela jurava que confeccionaria um dia.
No último ano da escola era hora de escolher. A menina começava a se desencantar pela moda, não que aquilo não fosse seu sonho, mas será que ela seria alguém naquele meio? Relações internacionais também era uma opção. Gostava de inglês, francês. Apaixonada por cultura de qualquer lugar, começava a achar que aquele seria seu destino. Conhecer novas línguas e lidar com pessoas diferentes dela.
Ao longo do ano, ela teve certeza de várias coisas. Começou com a certeza de cursar relações internacionais. Desistiu. Teria que sair de sua cidade, e ela não queria deixar o pai para trás. Eram apenas ela, ele e a irmã mais nova. Iniciou uma nova certeza, a de cursar administração. Desistiu. Queria trabalhar com pessoas, mas ainda não era aquela sua paixão.
Motivada por seu passado rural pensou em agronomia. Desistiu. O pai tinha passado péssimas experiências na área, e ela não queria aquilo. A próxima certeza foi o curso de direito. Desistiu sem motivo aparente. Aquilo ainda não a agradava. O curso de moda já estava fora de cogitação, também teria que sair da cidade para esse. Teve um insight. Psicologia. Sempre gostou de ouvir e ajudar as pessoas com seus problemas. Agora era certeza.
No dia da inscrição, marcou o curso, sem toda aquela certeza de antes, mas marcou. Todo dia ela examinava as profissões disponíveis na faculdade. Nada. Começava a sentir-se mal. “Não nasci para fazer nada, nada se encaixa no meu perfil” avaliava. No último segundo, do último dia para uma provável alteração no curso escolhido, ela tinha apenas uma certeza, não era psicologia.
Olhou todas as opções de novo, leu as descrições, e não sabia o que fazer. Foi quando um nome ressaltou sobre os outros. Um nome que ela havia visto várias outras vezes e ignorado. Como não havia pensado nisso ainda? “Prontos ou não, lá vou eu”. Foi fazer a prova de vestibular feliz, acertou todas as perguntas de português, e fez uma redação que até ela se surpreendeu. Aprovada, deu início no curso.
Hoje, Gabriela está no último período de jornalismo, e apesar da vida tê-la levado a novos desafios e oportunidades, pretende escrever um livro com seus textos e fazer sua pós-graduação em moda, já que sua paixão pelo assunto ainda está intacta. E finalmente tem certeza que está no caminho certo.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Grito de Socorro
Por Sarah Menezes
Rostos em prantos, olhares de desespero e expressões faciais implorando ajuda naquelas miseráveis cidades do nordeste, acometidas por uma destruição natural, onde perderam tudo, inclusive suas famílias. A única coisa que consigo perceber são gritos de socorro!
Alguém aí, do outro lado dessa tela, sentado em uma cadeira confortável, no aconchego do seu lar ou na sofisticação do seu ambiente de trabalho, já parou realmente para imaginar o que essas pessoas estão passando? Para se por verdadeiramente no lugar delas e sentir o que elas estão sentindo?
Pelo visto não, ao menos não é o que está parecendo. Não vi até agora nenhuma mobilização nacional para ajudar as vítimas de enchente em Alagoas e Pernambuco, nenhum auxílio que se compare ao que fizeram para ajudar a Tailândia com o Tsunami. E o pior, além desse descaso nacional, com um país concentrado somente em Copa do Mundo, tem seres humanos, nem sei se poderia denominá-los assim, explorando essas pessoas que perderam família, teto, lar, dignidade.
Famílias e mais famílias sobrevivendo da boa vontade dos vizinhos, lavando roupas, bebendo água e tomando banho em um rio totalmente poluído, arriscando a própria vida, e a dos filhos, ingerindo água contaminada. E o que se tem visto? Comerciantes exploradores, vendendo produtos ao triplo do preço normal, um galão de água a R$ 15,00, uma caixa de velas a R$ 5,00, um botijão de gás custando a exorbitante quantia de R$ 65,00.
Por que isso? Para que? Que justificativas plausíveis essas pessoas tem para explorar quem mais precisa de ajuda agora? É desumano. Isso é falta de compaixão, amor. Falta de sentir na pele o sofrimento da vida.
Isso é um desabafo gente, porque não consigo entender o que está acontecendo. Estou aqui para reavivar em todos o sentimento de solidariedade. Vamos fazer nossa parte. Aqui fica meu convite, e também meu protesto!
Rostos em prantos, olhares de desespero e expressões faciais implorando ajuda naquelas miseráveis cidades do nordeste, acometidas por uma destruição natural, onde perderam tudo, inclusive suas famílias. A única coisa que consigo perceber são gritos de socorro!
Alguém aí, do outro lado dessa tela, sentado em uma cadeira confortável, no aconchego do seu lar ou na sofisticação do seu ambiente de trabalho, já parou realmente para imaginar o que essas pessoas estão passando? Para se por verdadeiramente no lugar delas e sentir o que elas estão sentindo?
Pelo visto não, ao menos não é o que está parecendo. Não vi até agora nenhuma mobilização nacional para ajudar as vítimas de enchente em Alagoas e Pernambuco, nenhum auxílio que se compare ao que fizeram para ajudar a Tailândia com o Tsunami. E o pior, além desse descaso nacional, com um país concentrado somente em Copa do Mundo, tem seres humanos, nem sei se poderia denominá-los assim, explorando essas pessoas que perderam família, teto, lar, dignidade.
Famílias e mais famílias sobrevivendo da boa vontade dos vizinhos, lavando roupas, bebendo água e tomando banho em um rio totalmente poluído, arriscando a própria vida, e a dos filhos, ingerindo água contaminada. E o que se tem visto? Comerciantes exploradores, vendendo produtos ao triplo do preço normal, um galão de água a R$ 15,00, uma caixa de velas a R$ 5,00, um botijão de gás custando a exorbitante quantia de R$ 65,00.
Por que isso? Para que? Que justificativas plausíveis essas pessoas tem para explorar quem mais precisa de ajuda agora? É desumano. Isso é falta de compaixão, amor. Falta de sentir na pele o sofrimento da vida.
Isso é um desabafo gente, porque não consigo entender o que está acontecendo. Estou aqui para reavivar em todos o sentimento de solidariedade. Vamos fazer nossa parte. Aqui fica meu convite, e também meu protesto!
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