quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O segredo do sucesso

Por Maria Gabriela Brito

Hoje de manhã quando sai de casa, vi uma menininha pegando uma flor do jardim para dar a mãe dela. Achei aquele gesto tão simples e ingênuo. A mãe muito sem graça, me pediu mil desculpas pelo ato e ainda brigou muito com a filha. Aquilo me fez pensar que somos podados o tempo inteiro e desde sempre. Parece tão difícil sermos nós mesmos.
Aquela mãe nem percebeu que a filha havia dado a florzinha a ela. Penso que a menina deve ter se sentido diminuída. Assim é no mercado de trabalho. Parece que nunca somos bons o suficiente para nada. É um bombardeio de informações e dicas de como ser um profissional melhor, como ser o que as empresas procuram. Fica difícil saber por onde caminhar.
Hoje é preciso saber mais de duas línguas fluentes, porque o inglês, que já foi um diferencial, não é mais. E o diploma que também já foi importante, hoje não vale nada, se a pós, o mestrado, doutorado não estiverem ali para acompanha-lo. Além disso, temos que conhecer informática, entender de política, economia, natureza, estar atualizado, bem equipado, ter boa aparência, ser criativos, inovadores. É difícil ser tudo isso ao mesmo tempo.
Afinal de contas, o que as empresas querem? Tenho certeza que elas também ficam confusas ao escolher um profissional qualificado para determinado cargo, porque hoje, todo mundo sabe de tudo um pouco. É aqui que entra outro problema de sermos seres em busca da perfeição sempre. Os sonhos estão cada vez maiores, e muitas vezes chegam a ser utopias de tão impossíveis.
É como diz uma professora minha, “temos que ter metas possíveis”. As pessoas estão sempre querendo mais, e quando aquele sonho, que parecia tão distante, é conquistado, não é mais o suficiente. É difícil ficar satisfeito. Damos pouco valor ao que temos e muito valor ao que queremos, e assim as pequenas coisas vão ficando tão distantes.
A meta deixa de ser “carpe diem” (aproveite o dia) para ser: conquistar aquele tão sonhado emprego, ter uma vida perfeita, com carro do ano, filhos felizes e uma casa linda. E o pior, para conquistar tudo isso, ter todas as qualificações já citadas neste texto não é o suficiente. Além disso tudo, temos que mostrar nosso lado humano, mas sem demonstrar fraqueza, sem errar.
Cansei de ouvir que sou um produto à venda, e que preciso estar sempre bem vestida, sempre sorrindo, não posso errar nunca. Faz parte da construção do meu marketing pessoal. Só que não é todo dia que eu estou a fim de dar um bom dia empolgado para todos que vejo pela frente, e nem é todo dia que vejo passarinhos cantando pelo caminho.
Somos humanos, caímos, levantamos, sorrimos, choramos. Escolhemos caminhos errados às vezes, e outras, com sorte, caímos no certo. É difícil saber. E com tanta novidade, com tanta coisa que precisamos ser para conseguir aquilo que achamos ser a meta de nossas vidas, eu cheguei a uma conclusão, que pode parecer clichê, mas é a verdade. Hoje, o diferencial, e talvez o segredo do sucesso, seja sermos nós mesmos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Falar até ouvir

Por Mônica Salmazo

Aprender a ouvir.

Ela deveria ter aprendido a ouvir desde cedo mas não, falar era sua especialidade. Agora estava cabisbaixa, abismada pelo incontável número de burradas que havia feito na vida apenas por falar demais, e não saber ouvir.

Escutar todo mundo escuta, pensava ela. Somente agora, anos e anos de erros é que ela foi entender a diferença entre escutar e ouvir.

Escutar é escutar, nada demais, a gente escuta os sons e diálogos, mas ouvir, nãooo, ouvir é diferente, é processar a informação, é raciocinar sobre o assunto, é pensar antes de agir, ouvir antes de falar.

Rubem Alves já dizia que "nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade", agora ele tinha razão.

Glória levantou a cabeça, pesada após horas de culpa e vergonha que a obrigara a abrigar seu rosto em suas mãos, talvez como uma escapatória, uma camuflagem para a vergonha que sentia.
Ela avistou a razão de sua dor: ele ainda a fitava com os olhos cheios de ódio.
Não adiantava pedir para voltar, não adiantava querer cair nos braços dele, não adiantava tentar, e pela primeira vez na vida ela não sabia o que falar.

Lembrou da avó que lhe dizia que sábios são os que sabem ouvir e medir suas ações, esperto é aquele que ouve mais do que fala, mas para quê??, para que é que tinham que citar frases ao invés de explicá-las?, tornou-se uma forma mais conveniente para as pessoas sair recitando frases filosóficas ou poéticas e esperar que um dia, talvez, a pessoa aprenda na prática?, por que não a fizeram entender isso antes?, quantas e quantas palavras ela poderia ter economizado, quantas lágrimas, quantos arrependimentos, ai meu Deus, agora não adiantava mais.
O silêncio dominou o quarto, apesar dos raios invadirem as janelas, a escuridão dominava os pensamentos.

Ela sempre fora fiel, sempre amou de verdade, sempre deu o melhor de si, mas também poderia ter aprendido a ouvir, falava coisas que machucavam, falava desnecessariamente, mas acima de tudo ela achava que estava certa, que ele não precisava dizer o que havia de errado, sua consciência se encarregaria de filtrar as informações.

Como estava errada, Glória estava errada, até mesmo em seu nome de batismo. "Glória, glória, ha, fracasso seria mais adequado", pensava ela.

E isolada em seu próprio fracasso e mergulhada em sua própria vergonha, ele a deixou sentada ali, sozinha, sendo devorada pelo negro véu que a Lua trazia.

A última gota de lágrima caiu no travesseiro quando ela adormeceu.

Quando acordou ela não sabia mais falar, Glória aprendera, finalmente, a ouvir.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Reforna delirante!

Povoo,
Em breve o Delírios estará de cara nova!
Continuem acompanhando o blog, já colocamos em prática a reforma, dentro de alguns dias o Delírios estará ainda mais atraente!

Beijão galera,
Sarah, Mônica e Gabi

O Cara do Honda Civic

Por Maria Gabriela Brito

Subiu na sua motoca às 5 horas da manhã indo direto para o trabalho. Era isso que fazia todos os dias de segunda a sábado. Era cobrador de ônibus. Ele passava por aquelas ruas todas as manhãs. Era rotina, sem surpresas, sem novidades. Até que:

- Oh amigo! Psiu! Ow!

Ele parou a moto, olhou para trás e viu aquele Honda Civic zerado, e pensou “Que inveja desse filho da puta!”.

- Fala ai amigão...

- Então, o que tem pra fazer nessa cidade?

Ele olhou bem para o cara do Honda Civic. Não acreditava naquilo. “Mas que cara filho duma puta! 5 horas da matina de uma baita quarta-feira, esse desgraçado vem me perguntar que que tem na cidade? Só pode ser brincadeira!”.

- Olha só amigão, num sei não... To indo pro trampo.

- Achei que você talvez pudesse me mostrar o que tem pra fazer na cidade. Eu não sou daqui...

O cobrador só conseguia imaginar como a vida do playboy era boa! O cara procurava farra em uma madrugada fria de uma quarta-feira, enquanto ele estava indo para o trabalho. “Quando é final de semana e folga minha, ninguém me chama pra sair!”, pensou revoltado.

- Olha só amigão, num dá mesmo, tenho que tá no trampo daqui 15 minutos!

- E por 350, você topa?

O cobrador olhou assustado para o cara do Honda Civic e pensou morrendo de raiva, “O desgraçado é bicha!!”.

- Ê meu irmãoo! Ta doidoooo? So homem uai! Êêeeeeê! Nem fudendo, vô vaza!


- E por 550, topa?
- Ta maluco me’irmão! Vira homem sô! Eu, neguim, baxinho, de motoca, pego geral, se você fosse homem, nesse Honda Civic ia passá o rodo!

- Última oferta, 1000 reais, e ai?

Por alguns segundos o cobrador ficou olhando meio em dúvida para o cara. “Nó! Dá pra pagar as duas últimas parcelas da minha motoca, e ainda sobra uma graninha praquele tênis doido que eu queria comprar...”. Mas o pensamento só durou alguns segundos. Ele balançou a cabeça como quem quer afastar uma mosca e gritou revoltado:

- Você ta maluco cara? Nem fudendo! Aliás, muito menos fudendo!
Colocou o capacete, montou na sua motoca e saiu revoltado.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Tecendo sobre habilidades, ou não!

Por Sarah Menezes
Escrever! Presumo que seja esse o meu destino por vários anos de minha vida, afinal escolhi o como profissão o Jornalismo.
Contar histórias e sucitar discussões, essa é a minha função através dos textos.
Mas como todo jornalista, não me contente em tão somente relatar os fatos, no ato de escrever gosto de explorar a imaginação, viajar por pensamentos e lugares, inventar histórias de amor, desilusão, esperança. Expôr minhas idéias também é algo que me interessa. Conseguir, através das letras, explicar o que idealizo é deslumbrante. Posso fazer isso da maneira que eu quiser, com as palavras que eu quiser e, se mesmo assim, as pessoas me entenderem, saberei que tenho habilidade com a escrita, ferramenta que surgiu desde os primórdios da humanidade e que até hoje é fundamental para a comunicação.
É... inventar, relatar, expôr. Sobre todas essas maneiras de escrever eu já consegui obter um certo domínio. Mas escrever sobre amor e todos esses sentimentalismos é complicado, pelo menos para mim.
Eu fico me perguntando como que Renato Russo, Arnaldo Jabour e todos esses escritores inspiradérrimos conseguem traduzir exatamente o que sentem. Será mesmo mesmo que conseguem? Bom, mas não é para levantar essa questão que estou escrevendo.
Se eu não consigo nem definir meus sentimentos, falar deles trona-se muito mais complicado. Mas uma coisa eu descobri: muito mais complicado do que escrever sobre sentimentos, é escrever sem sentí-los.
 Se ele está dentro de você, uma hora ou outra você acaba encontrando uma maneira de tecer algumas linhas sobre, mesmo que complexamente. Mas se você não sente e nem nunca sentiu, aí as coisas complicam. Como falar de algo que não se sabe como é? Como definir? Através de conceitos que outros fizeram?
Cada um é diferente, e sente diferente. Definir sentimento me dá a impressão de limitá-lo, enquanto, na verdade, teria de ser ilimitado para ser sentindo por inteiro. Ou será que estou errada?

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A vida começa aos 30

Por Mônica Salmazo

Parece que hoje tudo é motivo para falar em dinheiro ou tempo. Dois fatores essenciais para quem deseja ter uma vida sossegada nos dias atuais.
Mas será que tudo gira em torno disso? Tudo gira em ganhar um dinheirinho e investir? Para todos os lados as pessoas falam em investir, até mesmo os jovens. Cada vez mais aumenta o número de jovens preocupados com o futuro, que juntam um dinheirinho e começam a investir.
A educação que se adquire dentro de casa é fundamental quando o tema surge, geralmente adolescentes preocupados com o futuro tem pais que falam sobre o assunto em casa. Os maiores investidores tem os pais como exemplo, e ver jovens discutindo sobre ações já não é coisa de outro mundo.
O mercado é tão extenso que quando decide começar, a maioria das pessoas se perdem com tantas opções. Investir em empresas privadas ou em títulos públicos? Taxas e mais taxas e mais taxas e cada vez mais taxas. Parece ser resistente o número de informações que insistem apenas em avançar. Livros sobre como cuidar do dinheiro, como investir dinheiro, como conseguir dinheiro e investir no tempo, organizar tempo, planejar seu tempo para ganhar mais dinheiro.
Investir em títulos do Banco Itaú ou Banif, do Socopa ou Spinelli, investir talvez nos Prefixados (LTN-NTN-F) ou indexados ao IPCA (NTN-B), atrelados à taxa Selic (LFT) ou indexados ao IGP-M (NTN-C). As informações são tantas que confunde a cabeça do novo investidor*.
Pensar demais no tempo é outra preocupação. O dia parece durar 36 horas e questões urgentes aparecem o dia inteiro. Falta de planejamento, para isso podemos ler o que fazer com o tempo, o tempo é precioso, ganhe mais administrando seu tempo, o tempo é seu melhor amigo, o tempo, o tempo, o tempo é tudo o que temos e precisamos sempre planejá-lo para que talvez ele passe a ser as velhas 24 horas da época dos nossos avós.
Já acabou o tempo que vivíamos de amor, que as aventuras eram permitidas, que o normal era casar e ter filhos jovem. A vida só começa depois dos 30, quando já gastamos a nossa juventude administrando o futuro, nos certificando que ao chegar nessa idade vamos ter uma vida tranquila, com conforto, com tempo, com dinheiro.
É sufocante! Muitas vezes me pego pensando no que será de mim se chegar aos 30 e não tiver tudo isso.
O mundo está criando pessoas estranhas. O mundo pede todas as habilidades imagináveis para preencher um cargo muitas vezes simples, depois de exigir que cada pessoa se especializasse em algo (especialista em planejamento financeiro de empresas médias do ramo agroindustrial, especialista em história do Brasil período colonial, especialista em limpar o baldinho de lixo do banheiro, especialista em servir batatas fritas palito, especialista em arrumar o broche do terno de marca específica), após toda essas exigências agora o assunto são os especialistas "gerais".
Agora temos que ser GERAIS, temos que saber colocar o broche e servir batatas, temos que saber história e sobre investimentos, saber de física avançada, de economia doméstica, saber escrever teses acadêmicas e reciclar o material em casa. Responder a todos sobre tudo.
Isso sufoca, sufoca quem está no mercado, quem está fora dele, quem quer entrar e quem quer sair, sufoca a família, os colegas, sufoca a sociedade. Daqui alguns anos as crianças vão nascer com seu planejamento de marketing pessoal construído e falando 10 idiomas.
Não tem como reverter este processo, a globalização tomou conta. Eu, como jovem, esperava ao menos que me ensinassem isso, me ensinassem a fazer meus planos, me ensinassem na escola que eu devo saber e o que eu devo fazer, por que não me disseram que eu deveria saber de tudo senão eu vou ser pobre?
Educação básica é coisa do passado, a educação tem que ser ultra mega hiper avançada e, dessa forma, TALVEZ, você consiga um emprego, TALVEZ consiga tempo, TALVEZ consiga dinheiro, TALVEZ consiga uma família, e TALVEZ consiga começar a viver aos 30.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Banho

Por Maria Gabriela Brito

Trabalhou o dia inteiro capinando jardins de casas chiques, não cobrava caro e fazia o serviço com amor e muito cuidado. Talvez tenha limpado uns 10 quintais naquele dia, e ganhado alguns bons 60 reais que pagariam a conta de luz do mês passado, a deste mês e talvez ainda desse para comprar comida.
Estava sujo e cansado quando terminou a última casa. Subiu em sua bicicleta e pedalou por longos e intermináveis sete quilômetros, distância equivalente entre os bairros nobres da cidade e a semifavela onde morava. Sua vida era medíocre, mas ele nunca reclamou, era muito simples pra isso.
Suas costas doíam, mas a vida o calejou o suficiente para não dar atenção a qualquer tipo de dor. As mãos pareciam estar mais grossas, típicas de um homem que trabalhou desde menino. Tudo para sustentar sua esposa e os quatro filhos pequenos.
Finalmente estava perto de casa, a barriga roncava de fome. Pensou se a mulher havia feito aquela sopa de jiló e moranga com muita água para ter o suficiente para a família de seis pessoas. Pensar no cardápio da janta deu água na boca.
Chegou suado na porta, já estava anoitecendo. Imaginou aquele banho relaxante que ia tomar. Banho relaxante que nada, pobre não tem banho relaxante, era só pra limpar mesmo. Tinha que racionar, o bairro andava sem água nos últimos dias.
Abriu a porta e viu a mulher na cozinha. A barriga doeu de fome, mas queria mesmo era aquele banho gelado, com os poucos fios de água desordenados que caiam do chuveiro. Foi direto para o banheiro, parou já sem roupa, ansioso, em frente à torneira. Rodou até as últimas e nem uma gota de água caiu.
Ficou chateado por um momento, mas foi dormir conformado e sujo mesmo, sem comer sopa. No outro dia acordou do jeito que foi dormir, sujo. Seu café da manhã foi a sopa aguada e fria da janta. Montou em sua bicicleta e foi dar continuidade à sua subvida, torcendo apenas para que quando voltasse naquela noite, tivesse água para tomar banho.